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O programa 360 graus recebeu, na terça-feira (29), o secretário Executivo de Gestão da Rede de Unidades de Saúde, Daniel Beltrammi. O médico natural de São Paulo revelou aos jornalistas da bancada como chegou à Paraíba para ocupar o cargo na pasta, contando que foi chamado para auxiliar na reestruturação do modelo de atenção à saúde pública do Estado. Ele também demonstrou preocupação com a situação da pandemia da Covid-19 na Paraíba.

O secretário confessa que na época do convite, em 2019, acreditou que a oportunidade fazia parte de um ‘chamamento’ e aceitou, mesmo sem entender o que aquele sentimento significava. Agora, com a pandemia da Covid-19 assolando o mundo, ele compreendeu a natureza da sua missão: ajudar os paraibanos a enfrentar esta crise sanitária. “Eu não teria me perdoado se não tivesse vindo para ajudar a Paraíba a enfrentar esse momento trágico, de muito sofrimento humano”, confidencia. Não por acaso, Beltrammi é médico sanitarista.

De fato, ajudar a Paraíba a combater o coronavírus, num momento onde nada se sabia sobre o novo mal, foi um desafio para a carreira de Daniel Beltrammi, que ele vem encarando com louvor. Passado mais de um ano da pandemia, os números de novos casos da doença seguem altos. Há vacinas, mas elas não chegam para todos. As ações de enfrentamento acessíveis, como uso de máscara e distanciamento social, não são respeitadas pela população. 

Embora o Estado vivencie, atualmente, um momento de suposto arrefecimento da ocupação dos leitos de hospitais, o secretário evidencia que esse dado só seria de fato positivo se uma queda expressiva fosse constatada também no número de novos infectados e na taxa de transmissibilidade, conhecida como R, que continua acima de 1 na Paraíba, oscilando entre 1,04 e 1,05. 

Os festejos juninos preocupam a Secretaria de Saúde. Mesmo com a suspensão do feriado de São João, muitos paraibanos foram comemorar a data no interior, onde a taxa de transmissibilidade, conforme Beltrammi, é relativamente maior do que nos 12 municípios da Região Metropolitana, no Vale do Mamanguape, no Brejo e no Vale do Paraíba, podendo resultar numa nova elevação dos casos. 

“Isso vai trazer uma dinâmica nova da pandemia dentro do Estado nos próximos sete dias, é fato. Quem está falando aqui não é quem tem bola de cristal, é quem está observando a pandemia nesses últimos 16 meses”, ponderou.  

O comportamento da pandemia é explicado pelo secretário. Quando há o crescimento de contaminações na Região Metropolitana e Zona da Mata, o número cai no interior paraibano, e vice-versa. Algumas regiões, dentro desse cenário, apresentam particularidades: por exemplo, no complexo Agreste-Borborema, que debutou recentemente na crise pandêmica. 

“Não tínhamos visto, até então, a região no entorno de Campina Grande passar por dias tão difíceis como passou ao longo do mês de junho, que trouxe uma novidade para a pandemia da Paraíba, que é ter problema em todos os lugares ao mesmo tempo. Sem dúvida nenhuma, para o combate, para o plano de contingência que a equipe da secretaria de Saúde do Estado está capitaneando, foram os momentos mais difíceis. O mês de junho foi um pesadelo”, desabafou, relatando que o momento obrigou o Governo da Paraíba a transformar hospitais do interior em centros de referência para o tratamento da Covid-19. 

No ponto de vista de Beltrammi, a maior dificuldade encontrada para combater a pandemia no Brasil está relacionada a comunicação – ou a falta dela. Ele acredita que essa é uma das principais armas para enfrentar a guerra biológica a qual vivemos. Em sua opinião, os brasileiros ainda não se deram conta da realidade provocada pelo coronavírus e atribui o fato à uma “guerra de comunicação”, que pode ser vencida ao educar a população contra a desinformação e o negacionismo.

“Em guerra biológica, o componente de comunicação talvez seja a linha de frente. Um país não ter clareza do que está acontecendo de fato talvez seja o principal problema. Há ainda pessoas que acreditam que o que nós estamos vivendo é uma ficção científica. Nós não estamos vivendo numa ficção científica. Nós vamos completar entre hoje e amanhã, quatro milhões de vidas humanas perdidas no planeta Terra. Que conflito mundial fez isso? E não querer enfrentar essa realidade sem fatalismo, sem populismo, sem qualquer outro tipo de sortilégio que turve a visão das pessoas, claro, só vai causar um tipo de efeito, que é mais vidas perdidas”, argumentou. 

Em relação ao hospital de campanha, montado no início da pandemia, Daniel Beltrammi explica que ele foi colocado propositalmente no estacionamento do Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires porque, dentro dele, foram criados leitos de enfermaria, para que nas instalações do prédio fossem abertos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que demandam um aparato tecnológico maior. A estrutura provisória e emergencial foi construída para assegurar os leitos de enfermaria num primeiro momento. Assim, o Estado ganharia tempo para estruturar unidades hospitalares definitivas, que ficarão à disposição dos paraibanos. 

“Bastar ver o Hospital e Maternidade Frei Damião II, basta ver o Hospital de Clínicas de Campina Grande, cada um deles com a capacidade de 130 leitos, são 260. O hospital solidário tinha uma capacidade próxima de 130 leitos. Mas, não se trata só disso. Quando a pandemia começou, o Complexo Hospitalar Regional Deputado Janduhy Carneiro, em Patos, tinha seis leitos de UTI lá dentro. Quantos leitos tem em Patos, e vão ficar depois da pandemia? 32 leitos de UTI. A gente fez um movimento de quase ‘sextuplicação’. Esses legados ficarão de forma permanente”, assegurou. 

A preocupação da gestão estadual foi elaborar, primeiramente, segundo o secretário, uma estratégia de contingência a curto prazo para conseguir atender à demanda inicial da pandemia na Paraíba. Feito isso, foi necessário garantir a longevidade das ações públicas. “O investimento público tem que garantir não só a solução do problema imediato, mas longevidade. Isso que é gastar efetivamente”, frisou. 

Os leitos disponíveis inicialmente no hospital de campanha não foram desativados, como é explanado em fake news pelas redes sociais paraibanas. Na verdade, eles foram realocados para unidades hospitalares físicas criadas pelo Governo do Estado e ficarão, permanentemente, disponíveis na rede pública de saúde da Paraíba.

Assista à entrevista completa: