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Vou chorar por meu amigo Segundo, vou chorar por Eduardo Carneiro que foi primeiro, vou chorar pela metralhadora da notícia Fábio Diniz e vou chorar pela candura de Kati de Bruno, vou chorar pelo sorriso largo de Paulo Gustavo, mas não vou engolir o choro. Esse gosto ao genocida eu não darei. Vou chorar, me desculpem, mas eu vou chorar.

Vou chorar mais de 470 mil vezes e até um milhão que Deus nos livre, mas se for essa a sina eu vou chorar por mais de um milhão de vidas que foram interrompidas pela omissão e complacência de genocidas que compactuaram e compactuam ou são suicidas. Vou chorar, me desculpem, mas eu vou chorar.

Vou chorar pela pátria consumida e dividida, pela massa sem vacina e sem comida, vou chorar em nome da ciência e até pela morte do negacionista que, contaminado pelo vírus da burrice e do ódio bestial, perdeu pra covid a sua vida. Vou chorar, me desculpem, mas eu vou chorar.

Vou chorar pela caserna, vou chorar pelos milhares de bons militares que, indignados e disciplinados, assistem um bunda suja sujar suas fardas e lambuzar suas armas de sangue, cinco estrelas afundando no mangue de uma instituição desmatada sob os olhares de uma amazônia de óbitos. Vou chorar, me desculpem, mas eu vou chorar.

Mas, por favor, respeitem as minhas lágrimas e não achem que minha geração vai ficar calada ou que escaparão por outra anistia. Vamos chorar, mas não vamos tolerar.

Dércio Alcântara