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Os tanques militares que cambalearam por Brasília nesta semana provocam asco e revolta – e com razão. Foi o capítulo mais ousado, cômico e assustador da simbiose profunda entre as Forças Armadas e o bolsonarismo.

É um roteiro que se repete e que já foi exposto aqui no Intercept: os milicos avançam o sinal vermelho, são advertidos por notas de repúdio inócuas, e logo a imprensa embarca em entrevistas anônimas de generais que se dizem, no privado, escandalizados com os eventos. O público respira aliviado: há freios na caserna contra as aventuras autoritárias de Bolsonaro! Mas a decepção chega como uma ressaca. Nenhum dos generais anônimos aparece em público para abortar a próxima aventura autoritária.

Essa dança errática, em círculos, interessa aos generais. O espetáculo ocupa a imprensa e as redes sociais, e os fardados reforçam mais uma vez uma imagem estratégica: a de que ocupam o posto de “poder moderador” da democracia e que devem ser temidos – ainda que seja tudo bravata.

Enquanto o país continuar distraído por essa farsa, os militares seguirão usando as mesmas cartas para vencer o pôquer que vem sendo jogado discretamente longe dos olhos do público. Há cada vez mais poder militar em campos estratégicos do país.

Uma reportagem que publicamos nesta semana traz um exemplo. Os militares são os principais atores da Força-Tarefa de Inteligência, um órgão criado para enfrentar organizações criminosas. Órgãos civis como Polícia Federal e Receita Federal fazem parte do grupo, mas, por omissão ou incompetência, o protagonismo é todo verde oliva. Já houve 55 reuniões, e a Polícia Federal não participou de nenhuma. Nenhuma!

Cabe relembrar o óbvio aqui: as Forças Armadas não foram criadas para atuar em segurança pública (exceto quando acionadas). Nem cabe ao Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, que coordena o grupo, o papel de combater crime organizado.

Se você está desconfiado que a força-tarefa nasceu como desculpa para militares monitorarem e combaterem movimentos sociais sob a justificativa de debelar o crime organizado, bem-vindo ao clube. Até porque os atores não fazem questão de esclarecer qual é sua definição de organizações criminosas.

No quartinho dos fundos, os generais também seguem vencendo rodadas de mamata. Outra reportagem do Intecept mostrou recentemente como a reforma da carreira e da previdência militares acumulou rombo bilionário ao conceder novas (novas!) regalias. Um exemplo é uma portaria que permitiu a oficiais do Exército que passam por treinamentos internos – muitos com poucos meses ou até semanas de duração – ganhem um aumento salarial superior ao que recebe um professor de universidade federal quando conclui um doutorado . E assim, de abono em abono, os salários pulam para a casa dos R$ 30 mil.

Isso tudo foi possível graças a uma maquiagem de números segundo o Tribunal de Contas da União, como diz a reportagem:

Em uma auditoria das contas públicas do governo em 2020, o TCU concluiu que Bolsonaro reduziu propositalmente as estimativas de gastos com militares em sua contabilidade. Despesas de R$ 52,7 bilhões em previdência e pensões – as famosas pensões pagas a viúvas e filhas de militares – foram escondidas.

O golpe talvez nunca venha. Ou já estamos vivendo sob um regime de exceção desde 2016 e ainda não quisemos admitir. Mas enquanto o país fica distraído nesse jogo de morde-e-assopra que abduziu a imprensa, inúmeros golpinhos ganham camuflagem para avançar na surdina.

Torçamos que alguém tenha coragem para gritar truco.

 

 

Com Intercept Brasil.