Fale Conosco

A data de 7 de setembro, feriado nacional, ganhou novo significado em profecias de alguns pastores evangélicos nas redes sociais. As visões indicam uma batalha espiritual e antecipam situações descritas no último livro da Bíblia (o Apocalipse) que trabalha com as visões do apóstolo João sobre o fim dos tempos.

No plano terreno, o objetivo é mais simples: convocar os fiéis a participar dos atos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no feriado da Independência. Os vídeos viralizaram em plataformas como YouTube, Tik Tok, Instagram e Facebook.

Na narrativa, falam sobre soldados e civis invadindo o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal), espiões infiltrados no meio do povo e o receio de que a liberdade religiosa esteja em risco.

As profecias são frequentes em cultos e manifestações de pastores de igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais. A novidade está no contexto político ao qual estão atreladas, já que antes elas eram restritas ao cotidiano dos fiéis e da comunidade. As convocações para os atos assumem diversas agendas, que vão da defesa do voto impresso ao combate ao comunismo.

“Essa linguagem de profecia, de batalha no mundo espiritual, isso sempre apareceu em relação a temas próprios da vida dos indivíduos das igrejas. Mas já que eles aproximaram isso da política, o 7 de setembro virou um prato cheio”, observa o pastor batista, sociólogo e pesquisador do ISER (Instituto de Estudos da Religião), Clemir Fernandes.

O pastor e sociólogo também observa que o apelo de liberdade religiosa, para muitos evangélicos, é superior às demandas políticas por trás do 7 de setembro.

Em um dos vídeos, o pastor Daniel Adans evoca o “papel de autoridade” da igreja para se posicionar e profetiza a “ordem e o progresso” da nação. Já o pastor Sandro Rocha alega ter tido uma visão de soldados invadindo o Congresso Nacional em prol da democracia — o prenúncio foi descrito em live do blogueiro Oswaldo Eustáquio, investigado por participação em atos antidemocráticos e suspeita de disseminação de notícias falsas, com mais de 400 mil visualizações no YouTube.

“Eles [STF] querem tirar Deus da democracia impedindo a minha voz, a sua voz e também a liberdade religiosa”, diz o pastor Rubens Gabriel em vídeo visualizado 178 mil vezes até ontem (3).

Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, é outro a alegar perseguição religiosa em pregações online que terminam com o chamado para o 7 de setembro: “Passamos 15 anos com más notícias, com muita corrupção, com muita malandragem e perseguição à obra. Sofri na pele e chorei lágrimas de sangue”.

A cobrança pelo posicionamento político dos evangélicos é uma constante nos conteúdos virais. Com mais de 1 milhão de visualizações no Tik Tok, uma fala do pastor Cláudio Duarte evoca a necessidade do “crente” de se envolver na política. “Pensem nos seus filhos e nos seus netos, se você quer que te chamem de covarde ou de valente”, diz ele. “Dia 7 de setembro é um dia marcante para o Brasil”, acrescenta.

Cláudio Duarte é aliado de Bolsonaro e próximo do pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo). Malafaia tem sido outro expoente a favor dos atos do dia 7 nas redes sociais, alegando que setores de oposição do governo pretendem implantar infiltrados nas manifestações para tumultuá-las.

Magali Cunha, pesquisadora do ISER e editora-geral do Bereia, coletivo de checagem de fatos sobre conteúdos religiosos, afirma que “na história da religião existe isso do exército de Deus, e os missionários que trouxeram a igreja evangélica para o Brasil trouxeram muito essa coisa de militar pelo Senhor”, comentou.

 

 

Redação com UOL. 

Foto: Isac Nóbrega / PR.