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Enquanto aumentam a ousadia e o cinismo dos políticos e administradores públicos com relação ao desvio de recursos e bens pertencentes às entidades estatais, na mesma proporção ou em escala ainda maior (se é que isso é possível) cresce a indignação popular contra essa onda de improbidade, que associada a outras formas de criminalidade, corroi o que restou da decência que o povo, especialmente os pobres, construíram como patrimônio de família ao longo de séculos no país. 

Claro que esse é um problema ou fenômeno diretamente decorrente das características intrínsecas do Brasil, uma nação que há tempos tenta conciliar o crescimento econômico com as baixas taxas de desempenho educacional e a própria qualidade do ensino. 

Mas o que assusta é que, enquanto os crimes contra a vida e contra o patrimônio privado chegam a números inimagináveis por conta da capital influência de drogas como o crack, na delinquência pública os crimes são praticados por pessoas que agem sob efeito apenas do despudor e da falta de vergonha, fraquezas humanas estimuladas pela cobiça e pela garantia de que há uma rede de leniência e cumplicidade de parte das instituições encarregadas de barrar e punir as compulsões delituosas. E aqui, mais grave ainda, os criminosos têm inclusão social, não são os excluídos. 

O que é certo é que essa conivência e cumplicidade entre as instituições frouxas na aplicação do dinheiro público e as outras organizações encarregadas dos controles oficiais são de algum modo preconcebidos e intencional, porque isso permite que a compulsão criminosa contra o Erário invada a intimidade de todos os organismos estatuais e favoreça até os ladrões de toga, como bem gritou escandalizada e ofendida a Ministra Eliana Calmon, arranhando a sua própria e a garganta de milhões de brasileiros que estão gritando ao lado dela. 

AS RUAS ESTÃO CONVOCANDO O POVO SAQUEADO

A Lei Ficha Limpa, que é um monstrengo jurídico aprovado por um Congresso moralmente encurralado e validado por um Supremo Tribunal vacilante, com medo de o povo irar-se contra suas mordomias e sujeição ao tráfego de influência de advogados filhos e parentes de ministros, baseados em grandes escritórios brasileiros e multinacionais (quando não da advocacia pecaminosa de ex-ministros), pelo menos educou a sociedade para conhecer de sua capacidade de interferir no processo legislativo e criar uma cultura de vigilância e combate à criminalidade dos granfinos e sedizentes homens públicos. Muitos são mais ladrões notáveis que notáveis homens públicos. O STF que só presta contas a Deus, sem obediência a prazos, está emprestando validade a uma lei absolutamente inconstitucional, arvorando-se de ser um Poder Constituinte não constituído. 

Assim como a iniciativa popular de leis de controle da moralidade política, com todas as suas imperfeições trágicas, serve para ensinar o povo a zelar pela sua representação política, as ruas também servem para a população brandir contra esses malfeitores que jogam para o alto maços de dinheiro público com a certeza de que somente as notas que caírem é que serão consideradas suas. No caso dos detentores de mandatos eletivos, parece até que eles estão convencidos que foram eleitos e estão autorizados por contingentes eleitorais que se expressam apenas através de maiorias formadas por eleitores desonestos. 

As manifestações populares ocorridas pelo país afora nesse 15 de novembro, podem não ter sido volumosas como seria de se esperar. Falta um líder brasileiro com carisma e insuspeita autoridade moral para falar e ensinar o povo a se locomover. Talvez a falta dele em qualquer lugar do Brasil, tenha levado a sociedade a descansar ou brincar no dia da Proclamação da República, enquanto espera ansiosa que ele apareça. 

Mas as ruas já começam a ser visitadas. É um extraordinário avanço e bom começo. É como se Eliana Calmon tivesse mandado sua fotografia para vários lugares do país infectado pelo vírus da indecência pública e privada. Por enquanto, é ela quem mais lidera. 

Homens de boa vontade, ouvi-la! 

 

Este artigo integrará o futuro livro:
‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’
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