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A esperteza jorra de Lula como a água de um chafariz. Num instante em que os microfones e os blocos de anotações andam atrás dele, as 24 horas do dia, para registrar-lhe as explicações para as penúltimas denúncias, Lula esguicha conversa fiada no noticiário.

Ainda em Paris, discursou por uma hora e 18 minutos no encerramento de seminário promovido pelo seu Instituto Lula e pela Fundação Jean-Jaurès, do Partido Socialista francês (áudio disponível lá no rodapé). Em meio a auto-elogios e conselhos econômicos aos países encrencados da Europa, falou em “candidatura” e criticou a mídia.

Lembrou dos tempos em que o personagem que ele foi no passado ainda ateava medo nos empresários. Irônico, disse que os ex-apavorados racharam de ganhar dinheiro nos seus oito anos de presidente.

Foi nesse ponto que Lula injetou a perspectiva de novos palanques: “Espero que um dia, se voltar a ser candidato, eu tenha o voto deles…” Disse isso nas pegadas das manchetes sobre o Rosegate e sobre o depoimento tóxico de Marcos Valério à Procuradoria.

Antes, quando levava 2014 aos lábios, Lula não falava senão no direito de Dilma Rousseff à reeleição. Agora, é como se desejasse enviar um recado aos antagonistas. Algo assim: “Se me encherem o saco, eu volto.”

Lula não disse palavra sobre a super-assessora que mandava e, sobretudo, desmandava na caneta das nomeações. Silenciou também sobre a acusação de Valério de que autorizou os empréstimos do mensalão e teve contas pessoais pagas com verbas do esquema.

Já na parte final do discurso, disse algo muito parecido com uma tentativa de anedota. “Quando político é denunciado, a cara dele sai nos jornais. Sabe por que banqueiro não aparece? Porque é ele quem paga a publicidade dos jornais.” A pretexto de fazer graça, deu boa tarde à bobagem.

Nos últimos anos, muitos banqueiros migraram da editoria de economia para a de polícia. Por exemplo: Ângelo Calmon de Sá (ex-Econômico), Salvatore Cacciola (ex-Marka), Edemar Cid Ferreira (ex-Banco Santos), Daniel Dantas (Opportunity)…

Lula nem precisaria ir muito longe para descobrir-se desatualizado. Graças aos desmandos que eletrificaram seu primeiro reinado, a turma do Banco Rural, já condenada no julgamento do mensalão, está prestes a saltar das manchetes para o xilindró.

Embevecido com os próprios jorros, Lula ainda não se deu conta. Mas o brasileiro, submetido às penúltimas novidades, convive com o risco de redescobrir o ponto de exclamação. Antes, ouvia expressões esquisitas -“eu não sabia”, “eu fui traído”- sem fazer uma mísera concessão à surpresa. Agora, talvez já se permita alguns segundos de espanto.

Com Blog do Josias