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SÃO JOSÉ: OS ELEITORES NÃO TÊM PREFEITO

Gilvan Freire

 No Bairro São José, onde a riqueza mora ao lado, sem muros pelo meio, e onde um rio-esgoto divide um e outro e carrega (ou amontoa) o que os pobres produzem e os ricos descartam, há um povo segregado pela discriminação. Pouco importa que filhos de ricos possam fumar maconha e crack, e até traficar, a culpa já se sabe previamente a quem cabe, e a polícia antecipadamente sabe a quem perseguir.

 Se depender de nós, os moradores de Manaíra, que detém por bairro da Capital o maior PIB e um dos maiores entre as capitais nordestinas, todos estamos com o dedo indicador pronto para apontar na direção do Bairro São José, um lugar com nome de santo mas onde moraria o demônio que espalha desgraça em todo o derredor.

 Nos últimos anos, com a expansão imobiliária em Manaíra e o vertiginoso crescimento do comércio local, o Bairro São José foi recuando e se adensando. De um lado, o avanço e a prosperidade econômica, do outro o inchaço e a concentração de pobreza. Como poderia dar certo essa relação de vizinhança? Até Roberto Santiago, quando entendeu que os pobres e um pobre rio ocupavam legitimamente uma área que podia ser invadida pelo Shopping Manaíra, expulsou os dois, os pobres e o pobre rio. E ainda não apareceu uma só autoridade que pudesse reintegrá-los, botando cada um em seu lugar.

 Mas ninguém nunca perguntou de quem é a culpa. Os pobres do Bairro São José já se vêem como culpados, de tanto ouvirem isso pela mídia massificada. Os ricos de Manaíra, porque prosperam às suas custas, não são de fazer essa pergunta embaraçosa até por receio de que alguém, provocativamente, faça a pergunta/resposta irônica: por que vocês que são ricos, poderosos, influentes, instruídos e conscientes de seus direitos, nunca fizeram nada para discutir a sorte de seus vizinhos incômodos? Por que não se juntarem todos os que se julgam vítimas e procurarem achar outros ou os verdadeiros culpados?

 OS CULPADOS AGORA TÊM CARA DE ANJO

Na Segunda Guerra Mundial, quando pilotos japoneses suicidas começaram a atingir alvos militares americanos dentro do próprio território dos EUA – um risco grave que surpreendeu os aliados e os poderosos líderes da coalizão – surgiu a ideia de um genocídio para acabar com milhares de inocentes nipônicos, somente para causar a rendição do Japão. A bomba atômica destroçou Nagasaki e Hiroshima, quando cerca de 220.000 pessoas foram mortas sem culpa de nada. Eles morreram para que os poderosos sobrevivessem e triunfassem.

 O plano de reurbanização do Bairro São José é uma bomba atômica lançada pelo poder público para render os pobres e satisfazer aos ricos, e para falar aos eleitores e financiadores de campanha que residem no endereço mais caro do Estado. E também para agradar a todos na cidade que não toleram a delinquência quando ela está em todo lugar, mas só é apontada no sentido dos grotões.

 No plano de extermínio do São José, um morador que possui uma casa grande, ou um terreno grande, ou mais de um imóvel, todos adquiridos com seu suor e honra vai receber uma casa de menos de 40 metros quadrados. Na vizinha Manaíra, um morador que perder para o poder público um imóvel qualquer, receberá de indenização o ‘justo preço’. No São José, quem tiver vários imóveis alugados, como opção de negócio durante a vida, só receberá um casebre para morar. Em Manaíra, receberá por todas as propriedades que adquiriu, ainda que possa acontecer de, eventualmente, ter comprado tudo com verbas da corrupção, ou de outros negócios ilícitos.

 Ainda não se sabe se o bairro será evacuado por parte ou totalmente, para onde irão os moradores e o que será feito dos estabelecimentos comerciais e dos equipamentos públicos. Mas lá todos sabem que o novo bairro não caberá mais todo mundo dentro. E em Manaíra ainda caberá muita gente granfina.

 Há muito mais coisa para se dizer em breve, mas por enquanto basta uma constatação: a reurbanização do São José é uma obra de pressa eleitoral, conduzida por anjos perversos que querem ganhar uma guerra com uma bomba que elimina inocentes. São os mesmos que ao longo de anos podiam ter feito intervenções corretivas no bairro em parceria com seus habitantes. Mas é que só agora eles precisam fazer para contemplar a si mesmos. Nesse tipo de guerra, só os poderosos devem sobreviver em paz.