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O jornalista Rubens Nóbrega, um dos mais conceituados articulistas políticos do estado, que assina coluna diária no Jornal da Paraíba, usou hoje seu espaço para repercutir e analisar as ameaças que sofri. Agradeço a honra de ser notícia naquele nobre espaço tão bem escrito por Rubens e acrescento que a presidenta da API, Mrcela Sintônio, após ter lido a coluna também me informou que a entidade emitirá hoje nota de solidariedade a este blogueiro e repúdio as ameaças feitas por gente a serviço desse governo.

Leiam agora na íntegra a coluna de Rubens Nóbrega hoje no Jorna da Paraíba:

RISCO DE MORTE

Por Rubens Nóbtega

Faço por onde não ocupar o leitor com fatos ou polêmicas sobre colegas ou a categoria profissional a que pertenço por força deste trabalho. Mas alguns desses episódios – feito o descrito nos parágrafos seguintes – a gente não pode deixar ‘passar em branco’. Principalmente quando remetem a indisfarçáveis tentativas de intimidar, cercear ou mesmo impedir o livre exercício do jornalismo. Jornalismo que na Paraíba, sob o atual governo, se vê frequentemente ameaçado. “Não pela força do argumento, mas pelo argumento da força”, como diria o saudoso Raimundo Asfora. Dito isso… 

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‘Cabra marcado pra morrer’. Foi em que se transformou o jornalista Dércio Alcântara ao publicar anteontem em seu blog (dercio.com.br) o artigo intitulado ‘Irmão de criação do governador ataca o presidente da Assembleia e cria clima pesado’. Nele, o blogueiro reproduz e analisa críticas do jovem radialista Diego Lima à participação do deputado-presidente Adriano Galdino, fidelíssimo aliado de Ricardo Coutinho, em congresso de legislativos estaduais realizado semana passada em Vitória (ES). 

Em grupo de zap-zap Diego disse que não dava para comparar a reunião de governadores nordestinos que aconteceu no dia 20 de maio último em Brasília ao ‘passeio’ que Galdino e outros deputados estaduais fizeram ao Espírito Santo. A comparação surgiu em meio a debate sobre a validade do gasto de dinheiro público com viagens do gênero. Debate travado entre o radialista e uma colega da Assessoria de Imprensa da Presidência da Assembleia. Pois bem, Dércio teve acesso às postagens daquela discussão, reproduziu-as em seu blog e delas inferiu o mal-estar que os comentários do rapaz teriam provocado na base aliada. A partir daí…

Anteontem, algumas horas após aquela publicação, Dércio recebeu telefonemas ameaçadores de alguém que se identificou como Daniel, irmão de Diego, e acusou o jornalista de ter atacado a honra da família Lima ao se referir ao radialista como ‘irmão de criação do governador’. Ontem, o próprio Diego cuidou de fazer ameaças. Publicamente. Em programa de rádio comandado por Samuka Duarte, da Correio FM. Disse que ele e seus cinco ou seis irmãos resolveriam a parada diretamente com o agora desafeto, pois com eles não tem esse negócio de ‘dar trabalho à Justiça’.

Disse assim porque no dia anterior Dércio recomendara ao suposto irmão de Diego que pretensos ofendidos deveriam procurar a Justiça para reparar eventual ofensa. Diego teria se expressado daquela forma também porque, suponho, deva se sentir suficientemente empoderado para acreditar que ele e os irmãos ficarão impunes caso cometam algum atentado à integridade física ou à própria vida do jornalista. Mas por que este colunista acredita que o rapaz se sente realmente empoderado? 

Primeiro, porque ele é chefe de gabinete da Secom, a Secretaria de Comunicação do Estado, um dos órgãos mais poderosos, mais estratégicos e mais caros da atual gestão. Caro, sobretudo, para o contribuinte que banca milionária publicidade destinada a melhorar a imagem de governo e mais ainda do governador. Assim, quem ocupa posto tão estratégico nessa estrutura – seja pela juventude, seja pelo deslumbramento – pode muito bem se sentir tão poderoso quanto o poderoso a que serve. Mas nem só por isso…

Secundariamente, mas não menos importante nessa história, Diego priva da intimidade do círculo mais íntimo do poder. Pode não ter sido ‘criado’ pela mãe do governador, como informa Dércio, mas é notoriamente próximo de familiar mais próximo de Ricardo Coutinho. Por essas e outras, não configura infâmia alguma dizer que o radialista seria ‘irmão de criação do governador’. Afinal, mesmo que não seja, jamais tal referência justificaria ameaças como as que foram feitas. 

Por todo o exposto, além de absolutamente inaceitáveis e plenamente repudiáveis, ameaças como essas estendem-se a toda uma categoria de pessoas, particularmente aquelas que se tornam alvo de truculência processual ou verbal de expoentes do poder quando deles divergem, criticam ou denunciam. A atitude de Diego, jovem que sempre tive na conta de cordato e respeitoso, surpreende pela virulência e truculência que desvelam sua visível sensação de poder e, pior do que essa, a possível sensação de impunidade. Lamentável, por todos os títulos.

Encerro dizendo que arrisquei aplicar ao caso o título do documentário do finado cineasta Eduardo Coutinho que conta todo o sofrimento por que passaram Elizabeth Teixeira e filhos depois que o marido, João Pedro Teixeira, foi assassinado a tiros no ano de 1962 em Café do Vento, localidade do município de Sapé. Ele liderava as Ligas Camponesas que combatiam atrocidades do latifúndio na Zona da Várzea. Desde então, ‘cabra marcado pra morrer’ é mais que um título de filme. Virou carimbo que merece ser posto em todo aquele que se contrapõe com a veemência de um Dércio Alcântara a quem faz do poder não prerrogativa de autoridade, mas uma arma do autoritarismo.

Com Jornal da Paraíba