Estava em Brasília quando recebi àquela notícia que não me preparei pra receber: “seu pai morreu”.
Em cortes secos e rápidos, um filme se passou em minha cabeça e cada cena durava um segundo, mas era uma eternidade de datas, locais, pensamentos.
Voltei até um passeio de lambreta com ele, entre Cacimba de Dentro e Remígio, a primeira onde nasci e a segunda onde morávamos.
Eu ia em pé, sobre o assoalho da Vespa e com as mãos segurando no guidom, vento no rosto, sonhos de motocicleta, meu pai José Clilson e minha mãe Edileuza, jovens e com a vida pela frente, um homem negro que casou com uma polaca.
Hoje, Dia de Finados, não vou ao cemitério visitar seu túmulo, por quê nunca fui, a não ser naquele velório que pra mim começou no aeroporto Juscelino Kubitschek, quando embarquei em Brasília e já cheguei de madrugada na central de velórios.
Era um bom homem, sorridente e ingênuo, como são todos os bons homens que caminham para a morte pensando em vencer na vida.
Era conhecido como seu Ti e Ti, entre os mais chegados, Zé Clilson para os do mundo contemporâneo dele. Agradeço os ensinamentos e bons exemplos, principalmente pela transferência de aguçada mediunidade. Se vivo estivesse, estaria orgulhoso dos quatro filhos.
Dércio Alcântara



