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Folgenlosigkeit. O termo, mais uma daquelas palavras que parecem só existir em alemão, significa a ausência de consequências causadas por um ato. Esse conceito vem sendo usado em debates sobre como abandonar certos hábitos pode abrir caminho para uma vida com menos impactos negativos no planeta. Inspirado nessa concepção, o arquiteto e professor da Universidade de Belas Artes de Hamburgo (HfBK), na Alemanha, Friedrich Von Borries, resolveu criar a iniciativa “Bolsa para não fazer nada”, no intuito de dar uma cutucada na sociedade em meio à quarentena da Covid-19.

A ideia é instigar as pessoas a pensar no que podemos “não fazer mais” para viver melhor. E o projeto não para nessa provocação: serão três prêmios de 1,6 mil euros para as melhores ideias e as respostas inscritas farão parte de uma exposição. Para concorrer, basta tirar do papel aquela lista de coisas que você já não deseja fazer há tempos.

Porém, como ressalta de forma provocativa Von Borries, não se trata de falar sobre o ócio, mas sim sobre como o “não agir” pode ser convertido para o bem comum. Ele adianta que os candidatos captaram esse espírito: entre as respostas mais frequentes, que chegam em formato de listas e até poemas, estão causas como: não trabalhar num emprego que destrua o planeta; não ter carro; não comer carne; não enriquecer às custas dos outros; não odiar…

— Folgenlosigkeit pode ser uma utopia positiva; a ideia de que a vida de uma pessoa não tenha consequências negativas para os outros ou para o planeta. Deve ser visto como um valor que vale a pena lutar: como igualdade, liberdade, justiça — afirma o idealizador da iniciativa, que faz parte projeto “Escola da folgenlosigkeit: exercícios para uma vida diferente”.

Para dizer o que não gostaria de fazer mais, o filósofo italiano Domenico de Masi cita um poema chamado “Se eu pudesse”, de autor desconhecido e falsamente atribuído a Jorge Luís Borges nas redes, que tem entre seus versos a frase “Tentaria não ser tão perfeito, relaxaria mais”. O autor do livro “O ócio criativo” acredita que a pandemia da Covid-19 forçou a humanidade a um “grande seminário residencial” para pensar sobre como nosso excesso de produção, tarefas e demandas, estão esgotamento as possibilidades de vida no planeta.

— Perseguimos um modelo de vida centrado no frenesi da produção voltada para o consumo e do consumo voltado para a produção. O coronavírus forçou milhões de pessoas a refletir sobre seu destino e tenta nos ensinar que o necessário é mais importante do que o supérfluo, que é preciso ser solidário — diz De Masi.

O Globo