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Mulheres de todo o país se reuniram ontem em Brasília para participar da marcha das Margaridas, que homenageia a sindicalista paraibana assassinada em 1983 por usineiros.

A paraibana lutou, durante 12 anos, por educação e melhores condições de trabalho para os trabalhadores rurais. Leia repercussão da marcha publicada no Correio Braziliense:

 

Paraibanas Guerreiras

Sentadas sobre o pano com o desenho de Margarida Maria Alves – a líder sindical assassinada em 1983 por usineiros -, a sindicalista Dalva de Araújo Silva, 72 anos, e a agente setorial de assistência social Magna Silva Guimarães, 39, discursavam ontem sobre o direito das mulheres. As duas paraibanas participam sempre que podem da Marcha das Margaridas. Magna sentiu na pele a dor de uma criação severa do pai. Para livrar-se da violência doméstica, casou-se. Porém, o marido não só a traiu como também levantou o braço contra ela. A solução foi sair de casa sem rumo com a filha a tiracolo. Há sete anos, deu a volta por cima e virou assistente social em João Pessoa (PB). Agora, ela auxilia mulheres que passaram por tudo o que ela sofreu. “Somos pétalas da Margarida. Ela não morreu. Ao ajudar, coloco para fora tudo o que reprimi por tanto tempo”, desabafa. Sindicalista, Dalva também tem um histórico de luta. Já viajou por todo o país pregando a paz no campo e o direito das mulheres e das empregadas domésticas, categoria da qual faz parte. “Se a gente não saísse gritando por esse Brasil, nosso país teria visto mais mortes de ativistas”, avalia. (Flávia Maia)

Trajetória de luta

A Marcha das Margaridas homenageia a trabalhadora rural e líder sindical Margarida Maria Alves. Símbolo da luta das mulheres por terra, trabalho, igualdade, justiça e dignidade, ela foi assassinada em 12 de agosto de 1983. Os acusados pelo crime são usineiros da Paraíba. Margarida ocupou a presidência do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande (PB) por 12 anos. Fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural e lutou contra qualquer tipo de exploração, contra o analfabetismo, pelos direitos dos camponeses e pela reforma agrária. A penúltima edição da marcha ocorreu em 22 de agosto de 2007 e reuniu um público bem menor que o de ontem – 14 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Os manifestantes, no entanto, estimaram à época que 30 mil foram à caminhada.

Gincana para vir a Brasília

Para arrecadar dinheiro e vir a Brasília participar da Marcha das Margaridas, Juciely de Fátima Silva Moraes, 22 anos, e as colegas animaram a cidade de Cametá (PA) com bingos e festas. O grupo conseguiu R$ 8 mil e trouxe para a capital federal 200 pessoas. O grande número de paraenses serviu para chamar a atenção para a violência que assola o estado.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, o Pará tem a média de 14 mortes por ano devido a conflitos agrários. As últimas ocorreram em maio, quando o casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo foi assassinado em Marabá (PA). “Colocamos cruzes no Congresso para mostrar o tanto de gente que morre no Pará e fica impune. Queremos o nosso estado livre de assassinatos.”

Além da violência, a preocupação com a educação no campo motivou Juciely a vir para Brasília. Ela estuda história na faculdade porque em Cametá só há três opções de graduações. “Não sei o que vou fazer quando me formar”, reclama. A curiosidade de conhecer a capital federal, distante 1.800km, também motivou a viagem. Assim como a jovem, a maioria dos que vieram para a marcha nunca tinha saído da cidade natal.

Correio Braziliense”