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Professores das disciplinas de Física, Química e Matemática estão se tornando cada vez mais raros nas escolas de Ensino Médio da rede estadual. Isso é o que mostra um relatório divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) na semana passada na Câmara dos Deputados que aponta que, ao todo, a Paraíba sofre hoje um déficit de 808 professores nestas e em algumas outras áreas. O relatório ainda projeta um saldo negativo de 1.066 vagas nas salas de aula para 2016.

Conforme dados do relatório de auditoria coordenada do Ensino Médio do TCU, que analisou dados de estudos relativos à educação do ano de 2012 com o objetivo de identificar problemas e avaliar possíveis soluções para a educação do país, a falta de professores é uma tendência existente em todo o Brasil. Ao todo, a carência de professores chega a 32.738 profissionais em praticamente todas as unidades da federação.

Na Paraíba, em específico, a primeira especialidade em que se observa uma carência desses profissionais é Física, onde o déficit chega a 294 professores. Essa tendência também é observada em nível nacional, onde, somente nessa disciplina, faltam mais de nove mil professores. Em segundo lugar na Paraíba está Química, com um saldo negativo de 231 professores. Depois vem Matemática, com déficit de 139 profissionais; Sociologia, com 81 a menos; Filosofia, com 45; Artes, com 12; e Biologia, com seis.

Outro ponto observado, já com o objetivo de propor uma solução para esse alto índice de déficit de profissionais especializados nessa área, foi a alocação de professores em áreas que não fossem as salas de aula. Conforme o relatório, em 2012, apesar da ausência de 808 profissionais com formação específica, a Paraíba possuía 1.187 professores atuando no ensino médio sem formação específica. Dentre os que estavam fora das salas de aula, mas trabalhando junto a órgãos estaduais, 267 estavam cedidos a outros setores, 3.190 exercendo atividades administrativas e 370 afastados por outros motivos – para essa esfera da pesquisa, não foi considerado o afastamento médico.

E a carência de profissionais qualificados é sentida por alunos e diretores de escolas de João Pessoa. Conforme a aluna do 1º ano do Ensino Médio Maria Heloísa Silva, que estuda na Escola Estadual Professor Pedro Augusto Porto Caminha, a falta de professor teve início no começo do ano letivo. “Nós passamos três meses sem professor de Química. Depois ele veio e colocou o assunto em dia, agora estamos perto do fim do ano e está faltando professor de Matemática”, declarou, revelando que se sente prejudicada e que acredita ser pouco provável colocar o assunto perdido em dia.

Segundo a diretora da escola em que a aluna estuda, Jacy de Pontes, o caso do professor de Química foi resolvido e o problema agora é quanto ao de Matemática, mas este já está sendo observado pela Secretaria de Educação do Estado. “Nós informamos à 1ª Regional de Ensino e eles estão providenciando um professor. Sentimos que é difícil encontrar professores para essas especialidades e a gente sofre um pouco. Pior mesmo é quando, no início do ano, fazemos uma escala e o professor sai por outra oportunidade de emprego ou por alguma convocação num concurso. Isso aconteceu agora, mas estamos ajustando”, disse.

A reportagem ainda entrou em contato com diretorias de outras escolas, que, mesmo sem querer se identificar, revelaram que a ausência de professores não é uma raridade e reiteraram que as disciplinas de Física, Química e Matemática são aquelas com as quais eles mais têm dificuldades.

Na opinião do presidente da Associação dos Professores de Licenciatura Plena da Paraíba (APLP), Francisco Fernandes, a carência parte, primeiramente, da necessidade de se fazer mais concursos. De acordo com o relatório do TCU, 53% dos professores empregados nas escolas públicas em 2012 eram conveniados por meio de contratos temporários. “Há uma desvalorização acentuada do magistério. O ensino público não é mais visto como prioridade.

Com essa desvalorização, há um interesse cada vez menor pela área e aqueles que estão empregados buscam ter jornadas duplas ou triplas de trabalho, o que também afeta na qualidade. A educação pública é uma questão difícil por conta da inoperância dos governos estadual, municipal e nacional. Estamos em uma situação difícil”, declarou.

DÉFICIT DE 1.066 VAGAS EM 2016
Ainda de acordo com o relatório elaborado pelo TCU, baseando-se na infraestrutura existente nas escolas de Ensino Médio no ano de 2012, em 2016 a Paraíba apresentará um déficit de 1.066 vagas nas escolas.

O caso é preocupante se observado que uma das metas do Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação é de que, neste ano, todos os jovens entre 15 e 17 anos estejam matriculados nas escolas e 85% estejam no ensino médio. Segundo o relatório, a estimativa apresentada é conservadora e a necessidade de infraestrutura pode ser maior, sobretudo se forem embutidas projeções de oferta de ensino integral.

Quanto a também esse problema, o presidente da APLP, Francisco Fernandes, comentou que não somente salas novas são necessárias, mas também uma infraestrutura para aquelas já existentes. “Falta infraestrutura do ponto de vista didático-pedagógico. O aluno chega na escola e já se sente humilhado. Falta um ambiente que estimule, que seja atrativo, possibilitando a ampliação desse conhecimento”, opinou.

Segundo o professor, a preocupação se torna ainda maior quando se pensa na política nacional de ensino integral para o ensino médio, que já começa a ser debatida. “Não se tem noção da complexidade que é o ensino integral. As escolas não estão estruturadas para isso. Para funcionar, é preciso condições de funcionamento e isso não vemos hoje nessa estrutura, imagina de forma integral”, declarou. “É preciso que haja mudanças imediatas, pois a educação é quem prepara para a vida. Eu acredito que essa realidade está mudando, mas a passos lentos”, complementou.

SEM CONTATO
A reportagem tentou, por diversas vezes e meios, entrar em contato com a Secretaria de Estado da Educação, porém não obteve retorno para comentar os dados do relatório do TCU.

JP