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Quando li “100 anos de solidão”, de Gabriel García Mrques, decidi que queria mesmo viver da escrita e, cá com os meus botões, que queria ter um estilo parecido com aquele autor.

Foi no início da década de 80 e eu tinha me libertado da militância de esquerda e de suas cobranças e patrulhamento ideológico.

Estava eu acostumado a devorar livros que me remetiam a revolução Bolchevique na Rússia do início do século passado.

Após um período de rigidez literária na década de 70, e a sisudez da militância clandestina na OSI, os anos 80 chegaram mais leves pra mim e junto com essa brisa da anistia vieram a literatura de Fernando Gabeira com o seu “O que é isso companheiro?” e “Entradas e Bandeiras”.

Afastei-me um pouco da militância engajada após a anistia, fundação do PT e movimento das Diretas Já. Queria ganhar um pouco de dinheiro e viver o que o capitalismo oferecia de bom, pois, além de ninguém ser de ferro, entendia que a minha missão pela democracia se encerrava ali.

Os camaradas Chico Gato e Darlene se casaram, Regina cuidava mais de Hostílio do que da célula revolucionária, Edvaldo Careca Faustino já não militava como antes e Zé Renato só queria saber de ir todo dia se bronzear em Picãozinho.

Eu andava meio cansado das sessões de arte do Cine Tambaú e de vender o jornal O Trabalho para arrecadar fundos para a revolução que nunca vinha.

Li na veja o comentário sobre o livro do colombiano Gabriel García Márques lançado em 1967, fui na Livro 7 e comprei aquele best-seller denso e maravilhoso.

A saga de gerações misturada a revoluções e contra revoluções, uma literatura tão minimalista que eu me sentia na cena dos acontecimentos.

Hoje, ao saber pela Globo News que aquele prêmio Nobel da literatura morreu, decidi que vou reler “100 anos de solidão” e, logo após concluir, vou finalmente iniciar os primeiros rabiscos do meu livro.

Voltei 30 anos no tempo para resgatar uma missão que tenho na vida e 30 anos depois estou disposto a aliviar o karma.

Terei por influência uma mistura de estilos de Fernando Gabeira e do mestre Gabriel, que agora nos deixa para uma jornada ainda mais nobre.

Para Gabriel eu digo Deus te guie, para mim eu digo mãos à obra!.