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A cada nova revelação, Sergio Moro, ministro da Justiça, vai deixando mais clara a sua natureza. Começou a sua trajetória, com a colaboração da imprensa, como uma espécie de Príncipe do Direito, disposto a pôr fim à impunidade no país — ao menos segundo o arranjo retórico que criou para si mesmo. Quase todos caíram na sua conversa e cederam ao canto do pavão.

“E pavão canta?” Emite um som desagradável, mais agudo e mais longo do que o do marreco. Seu jeito de encantar é abrindo a cauda, inútil para qualquer fim que não seja seduzir a fêmea. Tem a sua virtude, claro!, para a fêmea de um pavão. Não para o estado de direito.

Reportagens da Folha e do site The Intercept Brasil revelam que Moro tomou a iniciativa de estimular Deltan Dallagnol e a Lava Jato a vazar dados sigilosos da delação da Odebrecht que dizia respeito à Venezuela, com o claro intuito de influir na política local. Um problema: o vazamento era ilegal e punha vidas a risco. Mesmo assim, o vazamento aconteceu.

Eis que Moro resolveu recorrer ao Twitter na manhã deste domingo. E, ora vejam, não nega a existência das mensagens. E também não as assume. Mas as justifica.

“Novos crimes cometidos pela Operação Lava Jato segundo a Folha de São Paulo e seu novo parceiro, supostas discussões para tornar públicos crimes de suborno da Odebrecht na Venezuela, país no qual juízes e procuradores são perseguidos e não podem agir com autonomia. É sério isso?”

Eis o antigo pavão nada misterioso transformado em urubu do estado de direito e da ordem legal. Embora acrescente o adjetivo “supostas” ao substantivo “discussões” — entre ele e Dallagnol, seu subordinado, e entre este e seus pares de Lava Jato —, é evidente que o agora ministro admite como virtuosos os diálogos.

Ao sugerir o que sugeriu e escrever o que escreveu — e o crime foi cometido! —, o urubu da ordem legal resolveu fazer sombra em outros países da América Latina com sua cauda.

Sim! Ele já chegou a ser um pavão algo misterioso. Hoje, é só uma esfinge sem segredos. Não vê quem não quer.

A análise é da coluna de Reinaldo Azevêdo do portal UOL.

Da redação