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Em 2010, no auge de sua popularidade, com índices de aprovação batendo no teto, o então presidente Lula tinha tudo para ganhar sua terceira eleição consecutiva. Mas, como a Constituição não permite três mandatos seguidos a um chefe do Executivo, essa alternativa não existia. Lula tinha de se despedir de seu domicílio no Alvorada. Tudo o que podia fazer era indicar um nome para lhe suceder.

Foi assim que o nome de Dilma Rousseff entrou para a história do Brasil. Foi assim que a imagem de Dilma Rousseff começou a ser milimetricamente construída. Sem nunca ter passado por eleição alguma, sem liderar um único militante do PT, sem carisma dentro ou fora do partido, a então ministra da Casa Civil virou sinônimo de gestora genial, além de ter virado também a “mãe do PAC” (alguém ainda se lembra dessa sigla?). Sua figura austera e severa, avessa a conchavos, convescotes e tapinhas nas costas, ganhou a aura de suprassumo da competência administrativa, numa proeza notável do marketing político. Que funcionou direitinho. O eleitorado comprou essa imagem, e Dilma venceu o pleito de 2010, como a gerente ideal para tomar conta do Brasil.

A expressão “tomar conta” não é assim tão aleatória. Na cabeça de muita gente, aquele terceiro mandato vetado pela norma constitucional seria mais ou menos o mandato em que Lula sairia de férias.

Alguém tomaria conta da casa, para que ele pudesse voltar quatro anos depois.

Agora, quando os quatro anos se passaram, o nome de Lula continua em alta (estratosférica) em todas as pesquisas. Ele tem tudo para regressar. Basta uma palavra, e o PT vai sagrá-lo candidato oficial. Não há nada a impedir esse caminho. Nada, a não ser a imagem de Dilma Rousseff. A titular da caneta que, no dizer de um jornalista arguto, é o mais poderoso partido político deste país quer permanecer no emprego. Se ninguém demovê-la dessa determinação, Lula, mesmo tendo tudo na mão, ficará de mãos atadas. A não ser…

A não ser que a imagem de Dilma derreta. Se sua fama de gerente ultracompetentíssima entrar em combustão, se ela não mais conseguir agregar os líderes da base aliada, se expoentes do PT aumentarem o volume das críticas que já fazem a ela, bem, nesse caso, ela poderia espontaneamente pedir para sair. Aí, então, abriria o caminho para Lula voltar nos braços dos cabos eleitorais. Sem desgaste. Ele estaria de volta não como um chefe ingrato e deselegante que desalojou do emprego a primeira mulher a presidir o Brasil, mas como o soldado que diz sim a uma convocação do povo. Ninguém lhe daria mais apoio que a própria Dilma.

A conjectura talvez pareça irrealista, mas é bom não desprezá-la. O cenário improvável começou a ganhar viabilidade concreta quando o PMDB se rebelou ferozmente contra ela. Bem se sabe que o PMDB, esse peculiar partido de centro no qual o centro está em toda parte, é o lastro da nau da governabilidade. Se ele pular fora, a coisa aderna. Por enquanto, os peemedebistas só ameaçaram, não produziram estragos maiores, mas já foi o suficiente para adensar o coro do “volta, Lula”. Em seguida, estourou o escândalo da Petrobras, que vem aniquilando a reputação de gestora eficientíssima que Dilma segurou até aqui, meio aos trancos. Ainda em seus tempos de ministra, quando presidia o Conselho da estatal, ela deu aprovação expressa a um negócio que custou à Petrobras mais de US$ 1 bilhão. Não poderia haver notícia pior para uma gerente competente. Estamos falando, portanto, de uma imagem em franco derretimento.

Quem ganha com isso? Não, não são os opositores. Quem ganha é a coalizão que já está no poder e que, em caso de necessidade, tem na manga a melhor carta de todas: Lula lá de novo. Eis a sinuca em que se encontra a oposição. Se o mundo sorrir para Dilma, ótimo para o governo. Se, no entanto, Dilma derreter, tanto melhor.

Por um caminho ou por outro, o isolamento é o que mais se fortalece na órbita dela. A solidão aumenta à medida que a temperatura sobe. Dilma olha para os lados e não vê ninguém – a não ser o rosto onipresente de seu maior apoiador, também seu maior pesadelo, o único que pode destroná-la.

Para encerrar a história, uma ironia (sempre existe uma): a imagem de Dilma vai se desfazendo não pelos defeitos que ela tem, mas pelas virtudes que ninguém lhe tira. Deixando de lado os erros administrativos, indiscutíveis, é por ter dito um ou outro não aos caciques narcisistas, de reputação pouco ilibada, que ela agora tem de gerenciar seu próprio derretimento. 

Por EUGÊNIO BUCCI  

Da Revista Época