Fale Conosco

Maria Carolina Trevisan*

Colaboração para Universa

05/12/2019 04h00

A performance “Un violador en tu camino” (Um estuprador em seu caminho), idealizada por ativistas feministas chilenas do grupo La Tesis, chegou ao Brasil. Coletivos de mulheres reproduzem o misto de protesto e intervenção artística que se espalhou pelas redes sociais e foi replicada em diversas cidades do mundo e, em especial, na América Latina. Uma performance aconteceu nesta quarta (4) no largo da Batata, em São Paulo, e outra vai ocupar o vão livre do Masp, na avenida Paulista, nesta quinta (5).

É um marco no movimento de mulheres atual. “Mostra as características que tem essa nova onda feminista que estamos atravessando”, explica a argentina María Florencia Alcaraz, 34 anos, codiretora do Latfem (um meio de comunicação feminista) e integrante da Rede de Jornalistas Feministas de América Latina e Caribe.

Para ela, pelo fato de ser transnacional, sem fronteiras, e por expor de forma didática o que é a cultura do estupro, essa nova onda que une protesto e arte aponta para o machismo estrutural e não apenas para os indivíduos.

“O problema é estrutural, é do Estado, por ação ou por omissão. A performance é uma continuidade das narrativas dos últimos tempos, como o movimento ‘Ni Una Menos’ [nenhuma a menos, movimento surgido na Argentina contra a violência contra as mulheres], que expande e multiplica as suas possibilidades por meio das redes sociais”, diz. Foi a forma encontrada de juntar o feminismo tradicional à nova militância.

A intervenção começou no Chile, durante os protestos de rua que tiveram consequências violentas para as mulheres, provocadas pela repressão policial.

“A performance é uma forma lúdica de falar da cultura do estupro e se liga ao cotidiano das mulheres. É um jeito mais fácil de acessar as pessoas”, afirma a terapeuta ocupacional Marcela Azevedo, 34 anos, coordenadora nacional do Mulheres em Luta, que fará o flash mob nesta quinta (5), em São Paulo. O grupo vai se concentrar às 17h, na praça do Ciclista, e sairá em direção ao vão livre do Masp, onde a performance deve acontecer às 19h30.

“Junta a possibilidade de veicular a informação pelas redes sociais à necessidade primordial de uma ação direta e coletiva nas ruas. Isso dialoga com outros movimentos que estão acontecendo no mundo”, diz. E as mulheres estão na linha de frente dos protestos por direitos e contra violações no mundo todo.

Nesta quarta (4), cerca de 70 mulheres se encontraram no largo da Batata, em São Paulo, para ensaiar e filmar a performance, com uma versão em português da letra do protesto que trazia a palavra “racista” no lugar de “machista” no refrão. “Também é um protesto pelo genocídio em Paraisópolis”, diz a atriz Paula Tobaruela, organizadora do evento no Facebook. “Viemos para apoiar as mulheres chilenas, mas, como brasileiras, também precisamos falar sobre essas coisas”, afirma Paula, referindo-se à letra, um protesto pelo fim da violência contra a mulher.

Onde estava, o que vestia

A música que acompanha a encenação artística se dirige à figura do juiz que culpabiliza mulheres vítimas de violência sexual pela roupa que usam ou pelo local que frequentam, se refere ao patriarcado, ao capitalismo e chega à figura do presidente da República. Demonstra, com isso, a ampla dimensão do problema.

A intervenção é uma das formas de sensibilizar e conscientizar as pessoas para a questão da violência de gênero. Mas também é preciso implementar políticas públicas específicas. “A política pública mais importante para que tenhamos uma vida e um futuro livres de violência tem a ver com a educação sexual integral nas escolas”, alerta María Florencia. Além disso, os três poderes precisam estar habilitados a lidar com a questão.

Na Argentina, a “Lei Micaela”, aprovada em dezembro de 2018, exige formação na perspectiva de gênero a funcionários públicos. O objetivo é que todos os que desempenham função pública, em todas as hierarquias dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, estejam aptos a compreender e interceder na defesa das mulheres.

Para Florencia, o importante é focar em políticas de prevenção e sensibilização. O punitivismo, o encarceramento e a tipificação para agravamento de pena não são solução. Se fossem, o Brasil estaria em paz.

Mas, enquanto os casos de homicídio tiveram queda em todo o país, o feminicídio cresceu 4%. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram ainda que acontecem 180 estupros por dia no país, e a maioria tem como vítimas meninas de até 13 anos.

(Colaborou Camila Brandalise, de Universa)