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Tomei café ontem com meu amigo Byaia na Divina Misericórdia e ele me trouxe flashbacks à memória. O ano era 1979 e a ditadura respirava. Estávamos em março e o general Ernesto Geisel ainda era o presidente. Neste cenário pré-João Figueiredo aconteceu um festival de música no colégio ABC de Jaguaribe.

Manoel Gomes era o diretor e até hoje não sei quem o convenceu a permitir que o evento se materializasse. E vou logo explicando os motivos das ressalvas.

Fui avisado do festival, escrevi uma música e foi classificada. Eu era percussionista da Banda Som da Terra, que nada mais era do que a The Cristus.

Eu sei que vocês não entenderam, mas vou decifrar. Frei Geraldo da Igreja do Rosário, um alemão que tomava muita cerveja, permitiu que eu, Paulo, Jomar, Ricardo Astral e Pádua usássemos os instrumentos da paróquia, desde que o nome do grupo fosse The Cristus.

Na frente dele era, e até tocávamos as músicas que ele pedia, mas quando Frei Geraldo saia o repertório mudava e virávamos Som da Terra e tocávamos do baião ao rock, tudo com letras de protesto.

Já tínhamos feito sucesso com Byaia e Anay no Festival Universitário do Ipê (hoje Unipê), com a música “Sujeira”, e eu queria também deixar minha marca.

Escrevi uma música em que eu declamava um poema e pedia para todo mundo cuspir na ditadura e que tinha um refrão que dizia assim: ” É preciso ter cultura pra cuspir na ditadura”.

Byaia me lembra que estava ao lado de Manoel Gomes, já falecido, quando a ficha dele caiu e percebeu que na verdade o que estava acontecendo no colégio era um ato público contra o regime militar.

E isso a cerca de um quilômetro do 15RI, o principal quartel do Exército na Paraíba, onde fica lotada a maior tropa de infantaria e o famigerado S2, o serviço de inteligência deles.

Byaia me disse que Manoel Gomes parecia um arco-íris de tanto mudar de cor e de súbito foi lá e desligou a chave geral. Pronto, essa foi a primeira e única vez que me arrisquei como croner de uma banda e cheguei à conclusão que escrevia bem. Morria ali um cantor e nascia alguém que iria sobreviver da escrita.