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No dia 17 de março, quando o País sentia os primeiros impactos do novo coronavírus, a superintendente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Solange Vieira, teria dito e a integrantes do Ministério da Saúde, segundo relatos, que a concentração da doença principalmente em idosos poderia ser positiva para melhorar o desempenho econômico do Brasil ao reduzir o rombo nas contas da Previdência.

A fala foi dita em reunião fechada da qual participou o epidemiologista Julio Croda, então chefe do departamento de imunização e doenças transmissíveis do ministério, e outros integrantes da pasta. Ele confirmou ao Estadão o teor da fala.

A informação foi confirmada por outros dois integrantes do Ministério da Saúde, sob condição de anonimato, que participaram do encontro, e por outra fonte que afirmou ter tido conhecimento da fala por colegas. A economista nega e diz que defende o direito à vida e à saúde para todos.

Aliada do ministro da Economia, Paulo Guedes, a superintendente foi convidada pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para uma reunião com a equipe técnica da pasta.

Segundo Croda, Solange afirmou: “É bom que as mortes se concentrem entre os idosos. Isso vai melhorar nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário”. A fala foi inicialmente divulgada em reportagem da agência Reuters.

Outra fonte que presenciou a declaração contou que Solange falou a frase “em alto e bom som”, o que foi ouvido por “muita gente na sala”. Ainda de acordo com o relato de um integrante do Ministério da Saúde, a superintendente da Susep passou a “visão econômica” sobre o tema e deixou “todos estarrecidos”. Uma terceira pessoa que estava no encontro disse que o relato de Croda foi preciso. “Foi exatamente assim”, confirmou.

Em nota, a assessoria de imprensa da Susep, que é subordinada ao Ministério da Economia, disse que as declarações de Julio Croda atribuídas a Solange Vieira são “improcedentes”. Segundo o texto, Solange foi ao Ministério da Saúde para “contribuir com os modelos de projeção decorrente da pandemia de covid-19 utilizados por aquela pasta”.

Ainda de acordo com a nota da Susep, “na ocasião, foram observados os cenários apresentados e seus impactos, com foco sempre na preservação de vidas”. “A economista declara seu repúdio a toda e qualquer ilação que impute a alguma análise proferida juízo de valor em sentido contrário ao direito à vida e à saúde para todos, de qualquer idade, a qualquer tempo. Medidas legais cabíveis sobre o assunto estão sendo analisadas.”

Desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro rechaçou a estratégia desenhada pelo Ministério da Saúde com foco no isolamento social como medida de enfrentamento à covid-19 – ação recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

No fim de março, Bolsonaro afirmou que “não é apenas a questão da vida, é a questão da economia também”, ao falar sobre o tema. Desde então, dois ministros da Saúde, Mandetta e o oncologista Nelson Teich, deixaram o cargo.

Esta semana, após deixar a função de secretário de Vigilância em Saúde, o enfermeiro e epidemiologista Wanderson Oliveira despediu-se com recados à interferência do Palácio do Planalto sobre a estratégia da pasta de enfrentamento da covid-19.

Em publicação divulgada a colegas, Oliveira afirma que o Brasil estava inicialmente à frente de outros países e ampliava a capacidade de atendimentos e diagnóstico. No entanto, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, escreveu, reproduzindo trecho de poema de Carlos Drummond de Andrade.

Estadão