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“Chamar ‘criminoso’ a um cidadão que não foi julgado nem condenado é um abuso que revela a verdadeira natureza de Sérgio Moro. Um juiz-político (ou um político-juiz) que nem num país que o recebe mostra perceber o que é o respeito diplomático. E, já agora, o que é um Estado de direito pleno”, criticou o editor do jornal português Público, Manuel Carvalho, sobre as declarações do ministro da Justiça Sérgio Moro, que em visita a Portugal chamou o ex-primeiro-ministro do país, José Sócrates, de “criminoso”.

O editor do jornal português Público, Manuel Carvalho, criticou as declarações do ministro da Justiça Sérgio Moro que chamou o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, de “criminoso” em entrevista à uma emissora de TV de Portugal, onde participa de evento jurídico.

“Chamar ‘criminoso’ a um cidadão que não foi julgado nem condenado é um abuso que revela a verdadeira natureza de Sérgio Moro. Um juiz-político (ou um político-juiz) que nem num país que o recebe mostra perceber o que é o respeito diplomático. E, já agora, o que é um Estado de direito pleno”, reforçou.

“É, no mínimo, um desplante. E no máximo um desplante no limiar do agravo diplomático que um ministro da Justiça estrangeiro venha até nós chamar “criminoso” a um ex-primeiro ministro que nem sequer foi condenado em primeira instância”, afirmou o jornalista.

Manuel Carvalho salientou que José Sócrates é “um espinho cravado na ética republicana”, mas disse que chama-lo de “criminoso” na praça pública “sem que a sua sentença tenha transitado em julgado (sem que se saiba até se vai haver julgamento), é outra coisa completamente diferente”.

“Caso o juiz Sérgio Moro tenha esquecido, num Estado de direito existe a presunção de inocência. A menos que… A menos que Sérgio Moro tenha definitivamente despido a toga de juiz para se vestir com a pele de justiceiro, uma suspeita que a forma como geriu alguns processos da Operação Lava Jato legitima junto de muitos observadores”, enfatizou Carvalho.

Para ele, “é óbvio” para um juiz o dever de ser minucioso na “atribuição de estatutos a terceiros”. Ele lembrou ainda que, como ministro, Moro deve ter a prudência e o cuidado “sobre processos em investigação, principalmente quando está num país estrangeiro”.

“Tem de ser capaz de manter a elevação do seu cargo e da sua responsabilidade e saber resistir às acusações como as que José Sócrates, na sua delirante visão do mundo, lhe dirigiu. Tem, finalmente, de respeitar a independência da Justiça nos países que visita, abdicando de condenar sumariamente pessoas que nem sequer começaram a ser julgadas”, destacou.

“Pela dignidade do seu cargo e pelo prestígio que acumulou antes de acelerar o julgamento de Lula para impedir a sua recandidatura, antes de produzir uma condenação que muitos observadores internacionais consideram ser forçada face à fragilidade das provas, antes de aceitar ser ministro do mais polêmico presidente do Brasil das últimas décadas, Moro seria sempre bem-vindo a Portugal para fazer a apologia das suas ideias de justiça. O que disse sobre Sócrates foi muito para lá do tolerável e tornou-o uma persona non grata”, acrescentou.

Para o jornalista, o que está em jogo vai além de uma ofensa a um ex-primeiro ministro sob suspeita. “É um princípio básico do Estado de direito que foi atacado”, destacou.