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No Dia do Jornalista, repercuto a entrevista que a presidenta da API, Marcela Sitônio, concedeu a colega Rosa Aguiar.

Ela é a primeira mulher a assumir a presidência da Associação Paraibana de Imprensa, a API, uma entidade centenária que já teve importância como representantiva da sociedade e fiscalizadora dos direitos. No auditório do prédio histórico da API, na avenida Visconde de Pelotas, aconteceram debates sobre alguns dos temas mais importantes da historia da Paraíba. Diversas fases políticas e econômicas do nosso Estado podem ser contadas com o testemunho da API, formada por sócios, muitos figuras de destaque na intelectualidade paraibana. Nesta entrevista a jornalista Rosa Aguiar, Marcela Sitonio fala do atual momento da Associação, que ela está reerguendo com sua postura de jornalista séria e competente. Entre os desafios está trazer de volta a importância da API e a restaruação do casarão onde funciona. Marcela também falou sobre a profissão e os equívocos mais comuns em relação ao trabalho da imprensa. “O principal papel da imprensa é noticiar os fatos, da forma mais objetiva e verdadeira possível, fiscalizar e denunciar o que se faz contra o bem comum. Ora, fazer o correto é obrigação de todos, especialmente do gestor público. A imprensa não é obrigada a dar publicidade esse tipo de ação tão comum entre as pessoas do povo. Isso se explica no seguinte: o elogio agrada e a crítica incomoda”.

R – Os jornalistas têm o que comemorar ?

– O jornalista consciente do seu papel, como agente transformador da sociedade, terá sempre o que comemorar e fazer com seja comemorado o seu dia. É gratificante sabermos que podemos e somos capazes de contribuir com pautas propositivas para que haja mudanças de comportamento, de paradigmas na nossa sociedade; em pautar aos gestores públicos a criação de melhores condições de vida para a população; denunciar e alertar o cidadão do que está errado; elogiar o que é bom para a sociedade; dar voz a quem se sente desprotegido, oprimido. Enfim, a consciência de que somos instrumento de reflexão para que cidadãos e cidadãs exerçam seus deveres e direitos nos traz satisfação.

R – Na sua opinião, o que aconteceu para que a Justiça do STF votasse pelo fim da exigência do diploma de Jornalismo?

– Acho que foi um entendimento equivocado. Como podemos entender uma decisão dessa natureza, numa época em que se exige, cada vez mais, a qualificação de todos os profissionais e a comprovação dessa qualificação? E por que não do jornalista? Para qualquer profissão, o diploma não garante a qualidade do profissional e do seu serviço prestado. Reconheço que diploma não assegura competência. Se assim fosse, não teríamos magistrados, médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e tantos outros profissionais incompetentes. Mas, a formação universitária e os conhecimentos técnico e teórico que adquirimos dela são instrumentos imprescindíveis para o bom exercício profissional. O fim do diploma só veio acirrar ainda mais as precárias relações trabalhistas entre jornalistas e empresas, que controlam os maiores serviços da midia. A liberdade de expressão não passa pelo fim da exigência do diploma, conforme argumento dos ministros que votaram pelo fim do diploma. O que deveriam exigir legalmente é a melhor qualidade de ensino para a formação das nossas profissões.

R – Muita gente não entende que exercer diversas funções da categoria nas empresas não é simplesmente assinar um artigo no jornal. Será que não foi isso?

-Sempre houve uma pressão muito grande por parte dos empresários pelo fim do diploma para aumentar o exército de reserva ou a mão de obra excedente. Isto, certamente, também influenciou na decisão dos ministros. É mais fácil ceder às pressões das grandes empresas do que votar pelas dos trabalhadores. Estamos com uma PEC, que traz de volta a exigência do diploma, tramitando há mais de um ano no Congresso. Se fosse de interesse dos controladores da mídia, a matéria já teria sido aprovada.

R – Quais são os maiores problemas da categoria hoje?

-Na realidade, os salários baixíssimos constituem o maior problema, remunerações aviltantes, vergonhosas que são pagas pelo trabalho jornalístico, tanto na iniciativa privada, como no setor público. Na Paraíba, o jornalista, que não está ligado a algum esquema político, encontra dificuldade de sobreviver dignamente, obrigando-se a trabalhar mais de quarenta horas semanais em mais de um emprego para assegurar o básico, ou seja, uma feira modesta, o aluguel ou a prestação da casa própria e a educação dos filhos. Muitos não possuem plano de saúde. Rendem com muito esforço, nessas precárias condições de trabalho, numa jornada exaustiva, porque as equipes são pequenas. Enfim, quem não é concursado ou não caiu na “graça” do poder, amarga dura pena. Nesse aspecto, devemos combater esse tratamento revoltante.

R – Como anda a ética na profissão?

– Merecendo sérias reflexões por parte de todos nós, profissionais da imprensa. Sobretudo porque esperam muito de nós a ética que cobramos de outros profissionais, especialmente, daqueles que optam pelo serviço público.

R – Alguns jornalistas parecem não saber a sua missão profissional, você poderia lembrar?

– Certa vez, li uma frase em um dos inúmeros blogs existentes, que dizia o seguinte: “jornalista é a pessoa física de maior utilidade pública”.Acho que ela define muito bem o nosso papel na sociedade. Não é por menos que nos consideram “o quarto poder”. Devemos ser mais coerentes com esta responsabilidade de informar. A imprensa continua, junto ao povo, a ser considerada como uma das instituições mais respeitadas. Pesquisas de opinião comprovam esta realidade. As pessoas costumam acreditar no que o jornalista escreve, naquilo que o radialista fala, no que é transmitido pela rede televisiva, massificação ou não, e nas notícias postadas nos conceituados sites de notícias. A imprensa pode derrubar ou levantar poderes, daí sua responsabilidade e importância no controle social da informação, na valorização da sua boa formação e na exigência da sua boa ética.

R – Muitas categorias, até mesmo o Judiciário, acham que a imprensa só fala mal. O que me diz sobre isso?

– Quem faz mais essa queixa não é a população, da qual a imprensa não fala mal… Por outro lado, enaltecer ações políticas de governos, decisões judiciais, isso não é jornalismo, é publicidade, que já se faz em demasia e com o dinheiro público. O principal papel da imprensa é noticiar os fatos, da forma mais objetiva e verdadeira possível, fiscalizar e denunciar o que se faz contra o bem comum. Ora, fazer o correto é obrigação de todos, especialmente do gestor público. A imprensa não é obrigada a dar publicidade esse tipo de ação tão comum entre as pessoas do povo. Isso se explica no seguinte: o elogio agrada e a crítica incomoda.

R – Recentemente houve um troca-troca de profissionais nos veículos de jornalismo da Capital. Como você vê este episódio?

– Essas mudanças, nas redações de algumas empresas de comunicação da Paraíba, poderiam, aparentemente, ser avaliadas como um fato normal, em virtude do mercado altamente competitivo e de grande rotatividade devido o número crescente de profissionais. Mas, desconsiderar o componente político, que influenciou essa “dança das cadeiras”, é cometer risível ingenuidade. O mais grave: este fato não é novidade, sempre acontece quando ocorre mudança de governo. Profissionais são descartados, perseguidos, porque não atendem mais às conveniências da empresa ou da “nova ordem” estabelecida pelo novo governo. Em alguns casos, as demissões não chegam a ser recomendadas pelo poder, são iniciativas de quem pretende agradar o poder. Em outros casos, elas são impostas de forma muito escamoteada, para que não paire dúvida sobre o propagado “espírito democrático da liberdade de expressão”. Assisto a esta novela desde que entrei no jornalismo, é uma espécie de “remake”; mudam, de modo repetitivo, apenas cenários e atores. Lamentavelmente, por questões que não cabem a mim julgá-las, alguns profissionais também embarcam nesse tipo de jogo, jogo sem regras, apenas de interesses pessoais, políticos ou dessas empresas. É preciso que o jornalista, vítima ou agraciado por esse tipo de jogo, diferencie compromisso do descompromisso, lute pela a verdade e perceba a causa desse abuso. Tudo isso, coletivamente com seus colegas de trabalho. Um lugar privilegiado para que nos unamos nesse sentido é a nossa Associação Paraibana de Imprensa.

R – Por ser a  primeira mulher Presidente da API, você  sofre preconceito em representar a entidade?

-O preconceito, mesmo hoje muito diminuído, existe. Mas não faz com que eu recue dos meus propósitos. Nenhuma batalha é vencida sem luta, luta que não é só minha, mas de todas as mulheres que ousam. Isto me dá força. Nunca fiz da minha condição feminina um cavalo de batalha, nem tolero que usem dessa condição como obstáculo ao exercício da cidadania. A API poderia estar sendo bem presidida por um homem, como poderia também ter sido, muito antes, presidida por uma mulher. Em mim chegou a vez de uma mulher presidi-la. Honrarei o compromisso que assumi com minha categoria, entre eles, o de resgatar a credibilidade da entidade; torná-la representativa do ponto de vista institucional, social e político. O importante é que, a cada dia, nossa sociedade se torna menos machista. Contudo, ainda há fortes sinais dessa discriminação. Já aconteceram várias vezes, ao ser convidada para alguns eventos, quando vou me identificar ao cerimonial como representante da API, o cerimonial pergunta: Qual é o nome do presidente, ele não veio? Respondo: Veio , o nome é Marcela.

R – Falando sobre os homens. Eles estão preparados para serem companheiros da mulher profissional e independente ?

 -Estão aprendendo num processo lento, mas estão. Percebo que não é fácil para eles compreenderem esta nova realidade que está posta e não tem retorno. O machismo, absorvido através de atitudes dos pais, homens e mulheres, e repassado de geração em geração, está em processo de extinção. Este processo de mudança é lento, mas avança e supera raizes do passado, graças à luta da mulher e à ajuda do homem esclarecido, na defesa dos nossos direitos. O poder de “mando” é confortável, ser servido é melhor ainda, controlar desejos, determinar a vida de uma outra pessoa resulta em prazer para muitos. Por isso não desejam abrir mão desses injustos privilégios. Eis a grande relutância de alguns homens em respeitar as escolhas das mulheres que não sejam as deles. Agora estão tendo que aprender a dividir espaços, tarefas e o “bonus”, mesmo a contragosto. Quando não aceitam o fato como o resultado de uma luta histórica, tornam-se violentos, revidam até com criminosas violências. Apesar de tudo, acredito num futuro sempre melhor entre homens e mulheres, onde haja mais respeito e liberdade de escolhas, sem que isso se configure em desprezo ou abandono de um à outra e de uma ao outro. O bom sinal é a mulher ter, como o homem, chegado à Presidência da República.

R -Como está a administração da API e o que tem sido feito?

-A melhor avaliação da atual administração da API deve ser feita pelos associados, não por mim. Vou contextualizar o momento em que assumi a presidência da entidade, para um melhor entendimento das dificuldades que enfrentamos, sem a intenção de responsabilizar meus antecessores, acho que todos fizeram o melhor dentro de suas limitações, assim como tenho as minhas. Desde que assumi a API em 2009, a sensação é a de ter que matar um leão por dia para soerguer uma entidade totalmente desestruturada, do ponto de vista organizacional e financeiro. Não posso me queixar, já sabia o que ia enfrentar porque já fazia parte da direção, mas não tinha a responsabilidade que tenho hoje como presidente. No primeiro ano do mandato, conseguimos realizar um curso de Jornalismo Legislativo em parceria com a Assembleia Legislativa; depois levamos um treinamento para Sousa e Cajazeiras junto com o Tribunal de Contas do Estado (TCE); criamos o site da API, onde os profissionais são a notícia; estamos concluindo o recadastramento dos associados; conseguimos recuperar nossa representatividade em alguns conselhos e em alguns deles conquistar como é caso do Conselho do IPHAEP; estamos mantendo diálogo permanente com alguns setores importantes da sociedade civil; buscamos parcerias que rendem benefícios do ponto de vista da qualificação profissional com o Tribunal de Justiça, Esma, TCE, Assembleia Legislativa, Faculdade Maurício de Nassau, Sebrae-PB e Ministério Público; apoiamos também as ações do Fórum de Combate à Corrupção (Focco). Nossa luta maior agora é recuperar a sede da entidade que está deteriorada, o que impede de realizar debates, reuniões, em nossa própria casa. Acho que as maiores dificuldades já passaram, agora é continuar a luta que não é só minha, mas também de todos que fazem a API. Estamos caminhando para o dia em que comemoremos com maior alegria o Dia do Jornalista, radialistas, gráficos, fotógrafos, publicitários, haverá sempre dias melhores, assim creio.