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Segundo a narrativa criada pela imprensa americana, o presidente americano revelou informações ultra-secretas ao ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, sobre o Estado Islâmico. Impeachment, impeachment, impeachment.

O furo foi do jornal Washington Post que, em decadência, foi comprado à família proprietária por Jeff Bezos. Um dos gênios da economia hight tech, daqueles que combinam inteligência excepcional a tino comercial e senso de oportunidade em escala quase sobre-humana, Bezos quer fazer o bem, segundo sua concepção, e derrubar Donald Trump.

É uma briga épica. Durante a campanha presidencial, o dono da Amazon, atualmente batendo nos 82 bilhões de dólares disse que havia mandado seus empregados do Post colocar vinte repórteres para vasculhar “todas as fases” da vida de Trump.

Não tendo conseguido nada suficientemente sísmico para abalar o resultado eleitoral, Bezos e seus bravos empregados, entre os quais alguns dos melhores jornalistas do mundo, acharam e continuam achando que conseguirão escavar informações suficientes para abrir um processo de impeachment contra Trump

SUBMARINO ALEMÃO

Famosamente, o Post levantou as informações exclusivas que levaram à renúncia de Richard Nixon, às vésperas de ter seu impeachment consumado. Como no caso Watergate, o New York Times também noticiou a conversa – nem criminosa nem escandalosa – de Trump com os russos. Mas quem chega em segundo lugar dificilmente é lembrado.

Ainda é impossível dizer se a história vai se repetir. o bilionário Bezos tem a seu lado praticamente toda a grande mídia americana, o Partido Democrata, uma parte dos serviços de inteligência e fontes na Casa Branca que passam informações sobre Trump e seu governo.

Desde o primeiro dia do governo Trump, a sede da presidência americana parece um submarino alemão ao fim da I Guerra Mundial, vazando por todas as partes. O objetivo do Partido Democrata e da mídia é que vá ao fundo rapidamente.

O problema é que estes adversários estão tendo reações muito emocionais, o que obscurece o raciocínio. Por exemplo: quando Rachel Maddow, apresentadora de um programa de tv a cabo que parece sofrer de grave caso da Síndrome de Distúrbio Trumpiano conseguiu a declaração de renda dele 2005, achou que o presidente estava derrubado.

Acabou prevalecendo o fato incontestável de que ele havia pago 38 milhões de dólares de imposto sobre rendimentos de 150 milhões.

Se alguém imagina que Trump, ao longo de uma agitada vida financeira e midiática, não contratou os maiores especialistas em impostos de Nova York – ou seja, do mundo – está sofrendo de Distúrbio Trumpiado.

Não é nada impossível que ele tenha levado multas e contestado cobranças, pois vive sob auditoria. Se tudo o que ocorreu nesse campo até agora não fosse perfeitamente legal, o sujeito ja estaria pendurado pelos pés na entrada da Trmp Tower.

ESTILO MAFIOSO

O outro cavalo que a mídia e o Partido Democrata viram passar selados à sua frente, mas ainda não conseguiram montar, é a demissão de James Comey como diretor do FBI. Fora o estilo mafioso – e proposital, imagina-se, de deixar o dispensado saber que estava demitido pela televisão, durante um evento -, Trump agiu estritamente de acordo com suas atribuições. Ainda não dá para abrir um processo de impeachment por estilo.

Se não agiu, seus adversários estarão no melhor dos mundos. Caso se comprovem as suspeitas que eles já transformaram em fatos de que Trump queria abafar as investigações do FBI sobre uma conspiração entre ele e de seu entorno com a inteligência russa para passar a perna em Hillary Clinton, será aberto um processo de impeachment e, em pouco tempo, ele deixara a Casa Branca.

Caso ainda não existem indícios concretos, o FBI continuará a cavar até chegar em Moscou. Se descobrir conluios criminosos, Trump cairá da mesma maneira.

Pessoas espertas fazem coisas idiotas quando querem muito o poder (ou o cônjuge ou algo imensamente valorizado) e acham que vão perdê-lo, como Richard Nixon, entre outros, comprovou. Trump ainda está longe dessa fase, mas tem revelado sua alma de jogador – nada estranho, já que foi dono de cassinos.

Ele aposta e dobra, aumentando os riscos. Pode perder muito – e, evidentemente, ganhar muito, pois só o risco calculado traz altos retornos. Foi isso que fez com a visita de Sergey Lavrov e do embaixador Sergey Kislyak imediatamente depois da demissão de Comey.

Segundo o Post, Trump deixou escapar para os russos quem foi o informante que passou os planos do Estado Islâmico para explodir aviões usando bombas indetectáveis adaptadas para laptops.

“GARGANTAS PROFUNDAS”

Foi por causa desses planos, que já pareciam em estado operacional, que a Grã-Bretanha proibiu a entrada de computadores como bagagem de mão em vôos procedentes de países árabes e asiáticos.

Os “gargantas profundas” da Casa Branca passaram a informação, negada pela Casa Branca. Imprensa e democrata dizem que foi um ato de traição ao país cujo serviço secreto passou o nome e a origem da informação ultra-sigilosa.

Só para ter alguma perspectiva, vale lembrar que os russos também são inimigos do Estado Islâmico, que, por sua vez, é o inimigo mais brutal do regime de Bashar Assad, que sobrevive sob o protetorado russo.

PACTO FAUSTIANO

Quando Julian Assange e Edward Snowden divulgaram dezenas de milhares de informações saídas diretamente dos infindáveis bancos de dados da CIA e da NSA, a agência de espionagem que tudo ouve tudo intercepta, foram tratado como heróis tanto pelo Post quanto pelo Times.

O nível de invasão de privacidade dos serviços de informação é quase absoluto e a revelação de seus métodos levou a discussões sérias sobre o pacto faustiano que muitas vezes os cidadãos comuns nem sabem que fazem: mais segurança em troca de privacidade zero.

As informações secretas tinham os nomes de todos os informantes da CIA em países como Iraque, por exemplo, o que poderia levar à sua morte imediata. Expuseram todos os métodos usados pelos serviços de inteligência americanos para levantar informações, com imensos prejuízos.

Snowden mora em Moscou e Assange colabora ativamente com os russos. Durante a eleição presidencial, por exemplo, detonou Hillary com a revelação de emails de seus colaboradores. Trump achou muito bom.

Passar informações sigilosas aos russos não é sem precedentes. Tanto o presidente Franklin Roosevelt quanto o primeiro-ministro Winston Churchill avisaram Stalin da iminente invasão alemã contra a União Soviética, em junho de 1941.

Atenção: Stalin ainda era aliado da Alemanha nazista. Militantes comunistas de todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil, faziam campanha contra a guerra “capitalista”. Mudaram imediatamente de lado quando Stalin mandou. Em países como França, Itália e outros, comunistas foram para a resistência armada. Muitos combateram heroicamente e tombaram no sacrifício supremo.

GUERRA NAS ESTRELAS

Para o homem que já tem tudo, o Washington Post foi um presente criativo que Jeff Bezos deu a si mesmo. Um jornal tradicional, de enorme influência, para ser reavivado e dar um canal privilegiado para a opinião pública a um bilionário que, como seus colegas de ramo, nem sempre tem uma imagem muito positiva.

A ascensão de Donald Trump no panorama político foi um bônus para Bezos. Com ela, o bilionário da Amazon viu a oportunidade de fazer o que os muito ricos nem sempre conseguem: mudar o quadro político – e nos Estados Unidos.

Até um novo lema foi criado para o Post depois da eleição de Trump: “A democracia morre nas trevas”. Parece coisa de Guerra nas Estrelas porque muitos bilionários da economia high tech têm fantasias infantis influenciadas por livros, filmes e séries de televisão. Peter Tiel, o único nomão do ramo que apoiou Trump, dá nomes tirados de O Senhos dos Anéis a seus empreendimentos.

Talvez porque sonhem em virar personagens. Com razão, no caso de Bezos. Os pais dele eram adolescentes quando se casaram. O pai, um equilibrista de circo chamado Ted Jorgensen, rapidamente sumiu para nunca mais voltar. Quatro anos depois, a mãe se casou com um adolescente cubano chamado Miguel Bezos.

Jeff ganhou um pai e, eventualmente, um novo sobrenome. Como exige a mitologia do ramo, foi na garagem do pai adotivo que Jeff Bezos começou um dos negócios mais bem sucedidos de todos os tempos.

Como outros colegas do olimpo high tech, Jeff Bezos sonha em apressar e disseminar as viagens espaciais. Antes, quer mandar Trump para o espaço. Parece que vai ter um pouco de trabalho. A guerra de estrelas vai ficando cada vez mais interessante.

Fonte: Veja.com