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É uma situação de guerra. Governos devem gastar de modo maciço, trilhões de dólares no caso dos EUA. Se necessário, como em guerras de fato, devem converter instalações quaisquer em hospitais e fazer fábricas produzirem material hospitalar e médico, por exemplo.

É a opinião de Kenneth Rogoff, professor de economia e política pública na Universidade Harvard, ex-economista-chefe do FMI, tido como exemplar defensor da prudência no gasto público (bom ou mau exemplo, a depender do freguês).

Em entrevista a respeito do impacto econômico da epidemia para a PBS, TV pública dos EUA, Rogoff comparou o coronavírus a uma invasão alienígena. Em diálogo com o jornalista da Folha, foi menos pitoresco. Ainda assim, o esforço deve ser o de guerra.

De quanto gasto do governo se trata? Uma primeira rodada em discussão nos EUA chega à casa de US$ 1 trilhão, mas outros pacotes devem ser necessários (o PIB americano é de US$ 21,5 trilhões), segundo o economista.

Negócios especialmente afetados precisam de ajuda direta, grande, e empréstimos de modo a evitar que quebrem, entre eles companhias aéreas e serviços de turismo, espetáculos, restaurantes, pequenas empresas, negócios viáveis em geral. Gasto público em massa deve ser direcionado para famílias pobres ou de baixa renda.

O tamanho da recessão deve ser inédito, pelo menos desde a Segunda Guerra. Nos EUA, o PIB cresceu durante o conflito. Em 1946, caiu quase 10%. Em 1932, 13%. No curto prazo, a queda abrupta do PIB e do emprego pode ser maior do que em 2008, teme Rogoff.

Pelo mundo, um paliativo sugerido para a crise é adiar o pagamento de impostos; outro, oferecer crédito a famílias e empresas. Mas, por semanas sem faturar, firmas terão dívidas em excesso no fim da crise. Não é melhor transferir dinheiro, diretamente?

“Não existe uma solução justa e simples para substituir toda a massa de renda que está sendo destruída. Alguns países, como o Reino Unido e a Dinamarca, estão substituindo diretamente a maior parte dos salários [com pagamentos do governo], mas nos EUA isso deixaria as necessidades de muitas pessoas não atendidas (trabalhadores da economia do frila [bicos, “uberizados], autônomos, informais). Então, a transferência direta [de dinheiro] não é loucura, embora nada disso seja suficiente se a ‘pausa’ continuar indefinidamente”, diz Rogoff.

Com será financiado o esforço de guerra? Na maior parte, com mais endividamento do governo por meio de títulos e alguma “impressão de dinheiro” (criação de moeda pelo banco central). Literalmente, Rogoff disse o seguinte:

“Por enquanto, [o governo] pagará quase tudo com dívidas. Parte da dívida será na forma de reservas bancárias, que é tecnicamente parte da medida monetária M0 [dinheiro ou ativos imediatamente conversíveis em dinheiro]. Mas, agora que o Fed [BC dos EUA] está pagando juros sobre reservas comparáveis aos títulos [do Tesouro] de uma semana, é melhor pensar [tal coisa] como dívida”.

Nos anos depois da crise de 2008, Rogoff foi objeto de críticas ferozes por seus estudos que associavam a ultrapassagem de um certo limiar de dívida pública à redução do crescimento econômico, no longo prazo (mas baixo crescimento também provoca maior endividamento, a depender de tempo e lugar, argumentou na época). “O objetivo de garantir contas sólidas em tempos normais é ser capaz de tomar empréstimos em massa em situações de emergência como esta”, diz agora.

Mas ainda não parece possível estimar essa “massa” de esforço de guerra. O problema fundamental é vencer o vírus. Não se sabe quanto tempo vão durar os confinamentos, quando haverá remédios para a Covid-19 ou uma vacina. A guerra ainda está em curso, argumenta Rogoff.

A informação é da Folha de S. Paulo