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A eleição de Ricardo Coutinho foi saudada por muitos como a primeira grande chance de a Paraíba superar o atraso político desses últimos anos de disputas entre líderes que pensam muito sobre si mesmo e quase não pensam acerca do interesse dos outros. E foi pensando somente neles próprios que os maiores líderes do Estado abriram a guarda e deixaram que Ricardo abocanhasse o poder. À Cássio, que não disputava o governo, mais interessava que Maranhão perdesse o pleito naquele momento, ainda que no futuro pudesse ser ele em carne e osso o perdedor ou a vítima principal. Já Maranhão, obstinado na defesa de sonhos individuais, não foi capaz de entender que a coletividade tem também o direito de sonhar e pensar de maneira diferente dos seus líderes. 

Esses episódios acidentários da política têm deixado pelo menos três lições ao longo da história, e certamente uma delas poderá ser aplicada à Paraíba dos dias atuais. O primeiro ensinamento, fiel à sentença das urnas, é o de que líderes novos tomarão o lugar dos mais usados, em nome das mudanças reclamadas nas ruas. A outra lição é a de que o fracasso dos agentes novos e das mudanças trará de volta os líderes mais velhos. Esta é muito usual, especialmente quando a novidade revela-se pior do que a tradicionalidade. E a terceira e última lição conhecida, é a da espera e incerteza prolongadas, aquela indefinida em que somente o tempo se encarregará de fornecer ao povo o conteúdo e a hora da lição que há de ser dada. 

No Brasil de Collor de Mello, o Fernandinho, o povo não aguentou esperar muito para dar as lições apropriadas exigidas. Na Venezuela de Hugo Chavez o povo está dividido há 12 anos sem saber decidir sobre qual a lição que serve. E na Cuba de Fidel há mais de 50 anos e na Líbia de Kadafi há 42, o povo não teve antes liberdade para dar qualquer tipo de lição. 

Ricardo Coutinho ainda não se enquadra em nenhum dos casos, mas assim como ele não gosta de ser comum, é provável que a sua situação descambe para o incomum, o inusitado, algo diferenciado do que a história tem registrado até agora. Há, contudo, riscos de RC, em vez de ficar proferindo somente lições duras contra os outros, recebê-las de volta com maior dureza em pouco tempo. É a lei da semeadura. Ninguém escapa. 

CAFÉ SÃO BRAZ ESTIMULA O ÓDIO E A IRA

Não se conhecem os malefícios do café como estimulante do caráter ou do metabolismo dos homens, mas se for produzido na Paraíba e tiver a marca de SÃO BRAZ, pelo menos em Ricardo Coutinho tem a capacidade de produzir distúrbios graves. 

O recente noticiário escandaloso envolvendo a SÃO BRAZ num episódio de suposta sonegação fiscal, depois da primeira tentativa de enlamear a empresa e seus controladores nos 60 anos de sua fundação, poderia ser entendido como mais um lance da concorrência belicosa estabelecida nos últimos anos entre o Sistema Correio e a Rede Paraíba na busca de um mercado privado cada vez mais atrativo e promissor, embora ainda muito dependente das verbas públicas. Fosse por causa disso, mesmo que a população não tire o menor proveito da contenda e nem se agrade de seu conteúdo, o caso seria ao menos compreensível, pois não há como o povo possa interferir quando dois concorrentes comerciais desejam conquistar com os mesmos meios e armas a mesma clientela existente. 

Contudo, o noticiário não serve ao competidor em nada, porque a empresa SÃO BRAZ, com mais de meio século de ficha limpa, não é concorrente do Sistema Correio e nem atua em área próxima a de sua especialização. E a Rede Paraíba, a verdadeira concorrente, não está sendo acusada de nenhum ilícito, a não ser o de não adular ou submeter-se ao reino sagrado de Ricardo Coutinho. 

O propalado escândalo das notas fiscais frias, baseado nas palavras de um ex-funcionário terceirizado inconformado com a perda do emprego, que há anos bate à porta de autoridades sérias e não faz prova idônea de suas denúncias, é na verdade um engendrado pretexto para que Ricardo Coutinho mande o Fisco estadual fazer uma devassa fiscal na empresa que quando ele nasceu já existia na Paraíba. O governo quer silenciar, através do terror e do arbítrio, a Rede Paraíba de Comunicação, só porque ela, como filhote ou irmã do Café São Braz, não exalta as poucas e raras virtudes do governo, embora tenha contribuído muito noutros tempos recentes para que RC tenha conquistado o poder. Eita castigo da peste! 

A devassa fiscal na empresa São Braz, que é a jóia mais estimada da coleção de ouro de Zé Carlos da Silva Júnior, um homem imune a denúncias de que tenha crescido derrubando a cerca de vizinhos ou pilhando o patrimônio alheio, é parte da estratégia do atual governo de render pela chantagem a quem considere adversário ou ouse contestar a administração. Ou, pelo menos, atreva-se a noticiar os erros e desacertos do próprio gestor público empavonado com o poder temporário que está sendo corroído pela voracidade do tempo e pelo mau uso. 

  Quando se viu isso na Paraíba e aonde quer chegar esse moço? Ninguém será capaz de imaginar o que acontecerá neste Estado se a sociedade ficar desprovida de pelo menos um grande veículo de comunicação de massa, capaz de resistir às pressões e garantir ao povo o direito de informação e de censura aos desvios de conduta dos governantes e demais agentes do poder público. Por que o povo deverá ser privado de seu direito de opinião e crítica, para que Ricardo Coutinho possa governar como um tirano colocado acima dos homens e do bem e do mal, sem respeito às instituições e à lei? Será dado a ele o direito de escolher a quem deve fazer o mal, entre grandes ou pequenos, só para saciar seu instinto de perversidade e fazer prova de sua superioridade na manipulação do poder? É uma loucura! 

MARCHA TOTALITÁRIA DE DOMINAÇÃO, TERROR E MEDO

A rigor, o SÃO BRAZ é um café pequeno nessa crise. RC está mal se acostumando. Ele já desmontou uma greve de professores cortando salários nos contracheques e surrupiando parte da feira de gente muito sofrida e necessitada que não aguentaria privar os filhos do que comer. Ajoelhou todos os servidores da área de segurança, só porque cobraram o cumprimento de uma lei aprovada e sancionada no mesmo Estado que ele governa. Desmoralizou trabalhadores publicando uma lista de funcionários fantasmas que não eram outros senão os que trabalhavam regularmente. Foi buscar uma entidade com má fama, que tem nome de cruz, para exorcizar os médicos que não aceitavam a redução de salário e blasfemaram contra as perseguições. Desconsiderou ganhos dos servidores do IPEP consolidados em decisão judicial transitada em julgado e massacra a Defensoria Pública porque ela quer garantias asseguradas na Constituição Federal. Mas é generoso com um empresário rico e aproveitador que quer ampliar sua fortuna à custa do patrimônio público. 

Isso é ainda pinto. Ricardo quer subjugar os poderes atacando-os pela jugular, a dependência financeira. Ele tem a chave do cofre e cada poder tem um tipo de necessidade a mais para poder cumprir seu papel na sociedade. Depende dele. Os demais poderes são pacíficos. Nenhum deles é presidido por um homem belicoso que goste de conflito e enfrentamentos. Já Ricardo, adora. É seu forte. 

Deputados na Assembleia reagiram contra um projeto de lei de RC que chegou à instituição por debaixo dos panos e continha imoralidade de sobra e legalidade de falta. Encontrado de calças curtas no episódio da permuta de terrenos, RC reagiu e justificou dizendo que era para construir um shopping em Mangabeira. Mas nem isso estava no projeto e nem Mangabeira nunca soubera disso antes. Os deputados de oposição peitaram RC. A reação mais contundente apareceu em forma de panfleto anônimo contendo a foto e nome dos resistentes como se fossem eles os culpados pelo escândalo, só porque combateram a desonestidade. Talvez RC e RS nem precisassem fazer tanto esforço para convencê-los ou intimidá-los, se podem vencê-los pelo medo. 

A própria Assembleia está sitiada pelo governador, que não permite que o Diário Oficial publique decisão deliberativa e soberana do poder. É golpe institucional e confronto de consequências graves. Parece até que Ricardo ainda não se deu de conta que é dirigente de um poder apenas, e não proprietário dos demais. 

O ABSOLUTISMO NA PARAÍBA E NA FRANÇA

A Wikipédia, a enciclopédia da internet, conceitua o Absolutismo como sendo “uma teoria política que defende que uma pessoa (em geral, um monarca) deve obter um poder absoluto, isto é, independente de outro órgão, seja ele judicial, legislativo, religioso ou eleitoral”. 

Alguns estudiosos, em certo tempo, chegaram a confundir a prática absolutista com o Direito Divino dos Reis, concepção herdada da doutrina protestante, segundo a qual a autoridade do governante emana diretamente de Deus. Mas Deus nunca foi consultado sobre isso. 

Na França dos anos 1643-1715, sob o reinado de Luiz XIV, eram tamanhos os poderes do rei sobre as coisas do Estado e os homens, que o monarca certo dia vociferou: “O Estado sou eu!” 

Essa é a lição da história que pode convencer Ricardo Coutinho de que quem tem poderes para ajoelhar tanta gente não pode se considerar menor do que um deus. Ainda que ao verdadeiro Deus Ricardo não dê sequer o direito de discordar. 

Gilvan Freire

 *Este artigo integrará o futuro livro:

‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’

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