Brasil

Em discurso no PCdoB, Lula trata Bolsonaro, na prática, como aliado de sua causa

Pois é… Lula discursou neste domingo no congresso do PCdoB, em Brasília, que lançou a candidatura de Manuela D’Ávila à Presidência da República. E deu mostras de que continua a ser um dos políticos mais inteligentes do Brasil. Não! Isso não é sinônimo de cultura, de ilustração, de repertório. Isso quer dizer que ele segue sendo um dos leitores mais capazes do jogo político. Enquanto o centro e a centro-direita vão acumulando bobagens em penca, ele se move dentro do possível. Nota: a candidatura de Manuela, na verdade, é a vice de Lula ou de algum outro petista que conte com a sua bênção. Mas isso fica para outra hora. Sim, claro, ele defendeu o direito que tem o PCdoB de lançar nome próprio, neste momento em que, reconheceu, a esquerda está fragilizada. Mas a sua fala mais importante foi outra. Disse:

 “Eu não sou de extrema-esquerda, e muito menos o [Jair] Bolsonaro é de extrema-direita. O Bolsonaro é mais do que isso, e quem convive com ele sabe o que ele é. Não vou dizer porque acho que ele tem o direito de ser candidato, de convencer as pessoas, e o Brasil tem que colher aquilo que planta”.

Não chega a ser uma afirmação desairosa com o candidato que eu chamo da “direita circense” — porque, com efeito, falta a Bolsonaro cultura política até para ser de extrema-direita. Ele é um repetidor de jargões. O que não quer dizer que não possa ser perigoso. Entrevista concedida ao Canal Livre no começo da madrugada desta segunda indica que sim. Uma das ideias do homem é espalhar porte de armas na cidade e no campo: nas áreas urbanas, revólveres, nas rurais, fuzis. Escrevi largamente a respeito no meu blog, vejam lá. Mas voltemos a Lula e à sua leitura do jogo.

Fato: se a disputa fosse hoje, Lula seria eleito presidente da República. Mesmo depois do desastre que o PT provocou na economia, mesmo de depois de todas as evidências de falcatruas praticadas pelo PT, mesmo depois de ter conduzido o país à maior recessão da história, seus adversários precisam contar com a boa-vontade da toga para não vê-lo colocar a faixa pela terceira vez — se a eleição fosse hoje, reitere-se. Alguns se contentam em achar que o povo é idiota e não sabe votar — ou, vá lá, só vota direito quando o faz segundo aquilo que eles querem. Outros, como este escriba comentarista, preferem achar que o povo ora acerta, ora erra, ora acerta por motivos errados, ora erra por motivos certos… É a democracia. E, por óbvio, acho que os adversários de Lula confessam a falência de seus próprios propósitos quando torcem para que um tribunal faça por eles aquilo que o povo não faria.

Mais: essas “engenharias” sempre cobram um preço, cedo ou tarde. A emenda da reeleição de 1997 até pode ter impedido Lula de vencer em 1998 (não acho que venceria; o vencedor teria sido o Plano Real), mas não o impediu de vencer em 2002. E lhe garantiu a segunda vitória em 2006. E isso rende mais duas eleições ao PT. Mas esse é outro capítulo. Deixo para outra hora.

Ao fazer o discurso que fez no congresso do PCdoB, Lula sinaliza à esquerda que pare de tratar Bolsonaro como uma besta-fera — afinal, nenhum deles é extremista — e, por assim dizer, abençoa e escolhe o seu adversário. Sabe que ele próprio, ou um nome por ele escolhido que eventualmente consiga ir ao segundo turno, tem suas melhores chances justamente contra esse representante da direita circense.

Lula deu a “pegada” da campanha da esquerda:
“Nós estamos fragilizados na luta para evitar [o desmonte do Estado], porque os congressistas que estão votando para desmontar não têm compromisso conosco. Se a gente não tomar cuidado, vai piorar nas próximas eleições. Toda vez que se fala em mudança, piora. Precisamos pensar no que fazer”.

Alguém que ouvisse um líder político a dizer “toda vez que se fala em mudança, piora”, seria capaz de jurar tratar-se de um conservador. O Lula candidato (ou propagandista de candidato) não será aquele do passado, que anunciava amanhãs sorridentes; esse Lula do futuro será aquele que vai falar em nome do passado edênico que ele teria garantido e que seus adversários teriam roubado do povo.

 

Por Reinaldo Azevedo

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