Opinião

Coluna Estadão: generais querem distância das confusões dos ‘ideólogos’ do governo

Em Every Day Stalinism, a historiadora Sheila Fitzpatrick conta uma anedota popular na Rússia nos anos 1930 sobre um grupo de coelhos que foi pedir refúgio na Polônia. Indagados pelos guardas poloneses por que desejavam deixar a URSS, eles disseram: “A GPU deu ordens para prender todo e qualquer camelo na União Soviética”. “Mas vocês não são camelos!” “Tente dizer isso para a GPU.”

Tão difícil quanto era demover a GPU de seus intentos, é convencer o presidente Jair Bolsonaro dos desacertos do extremismo ideológico em seu governo. E, assim, a paciência de generais com o grupo que tomou de assalto os ministérios da Educação, das Relações Exteriores e a secretaria da Cultura está se esgotando.

Somente o respeito a Bolsonaro – fundamental para o projeto de poder dos militares que o apoiam – ainda preserva o presidente das críticas. Todos conviveram harmoniosamente no passado. O guru Olavo de Carvalho não era só um aliado. Era alguém com quem muitos oficiais compartilhavam as preocupações sobre o “perigo vermelho”.

A despetização” do governo não era um conceito apenas de Onyx Lorenzoni. Muitos militares acreditavam – assim como Bolsonaro – que seriam boicotados por funcionários, diplomatas e professores caso os mantivessem em seus postos. Critérios técnicos pouco importavam para quem se fixava apenas em aspectos ideológicos. E vá explicar ao chefe que ali está um coelho e não um camelo…

No começo de 2019, havia general torcendo até contra a escola de samba Mangueira. Um integrante do Alto Comando demonstrou sua decepção com a vitória do enredo que homenageava a vereadora Marielle Franco, assassinada por milicianos, em 2018. É que o bolsonarismo não admite derrotas. Nem na Sapucaí, perdendo-se em futilidades.

A “faxina” no governo só não foi maior porque, segundo outro general, faltavam quadros ao presidente para as vagas. A visão de se extirpar das funções públicas seus adversários é o que movia – e move – a política administrativa do bolsonarismo. Há nele quem se imagine senhor de baraço e cutelo. E crê que a população quer ordem muito mais do que preza a liberdade. Daí tantas menções a medidas de exceção entre os próceres desse movimento.

Criou-se assim o clima responsável por conduzir esse governo de digital influencers à sua mais recente crise. Graças ao pronunciamento de Roberto Alvim, inspirado em Joseph Goebbels, finalmente, o bolsonarismo pôde entender que o nazismo era um regime de extrema-direita. O götterdämmerung do secretário da Cultura teve ainda outro efeito: constrangeu os generais ligados ao bolsonarismo.

Há algum tempo ninguém se dispunha a defender os titulares da Educação (Abraham Weintraub) e do Itamaraty (Ernesto Araújo). “É difícil aparecer coisa positiva deles”, lembrou um general. Agora, procuram realçar o contraste entre aqueles ministros e os de origem militar. “Você não escuta falar nada contra o ministro da Infraestrutura (Tarcísio Gomes de Freitas) e da Defesa (Fernando Azevedo e Silva)”, disse o general e deputado federal Roberto Peternelli (PSL-SP).

A turma de Olavo de Carvalho e dos filhos do presidente se tornou um risco para os militares, contaminando a imagem do partido fardado. O caso Alvim foi um azul de tornassol. Enquanto Eduardo Bolsonaro lembrava nas redes sociais dos crimes dos regimes comunistas – uma tentativa fracassada de minimizar o escândalo Alvim, desviando o foco para o combate à esquerda -, o general Augusto Heleno descolava-se dessa estratégia. Após visitar o colega Eduardo Villas Bôas, ele aplaudiu a reação da sociedade contra o discurso nazista do hierarca da Cultura. Era o que se esperava de todos no governo.

Heleno sabe que tão importante quanto a reação do presidente – a demissão do candidato a Goebbels – são as lições aprendidas com o episódio. Quais os critérios que levaram à nomeação de Alvim para o cargo? O que Bolsonaro esperava dele? Bolsonaro vai manter a cruzada ideológica na Cultura, na Educação e nas Relações Exteriores? Aos militares que o apoiam só resta a esperança de que aspectos positivos do governo se sobreponham aos vícios da escalada autoritária. E torcer para que o tempo possa tranquilizar todos, inclusive os coelhos.

A análise é da coluna do Estado de S. Paulo

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