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“Temos um presidente que adora coca-cola e Disneylândia”, disse Paulo Guedes ao apresentar Jair Bolsonaro a uma plateia de investidores americanos, em Washington. Discursando na sequência, Bolsonaro ecoou seu Posto Ipiranga. Definiu-se como um presidente que “é amigo” e “admira” os Estados Unidos, “esse país maravilhoso.” Incluiu o ídolo Donald Trump no rol de suas admirações. Horas depois, em entrevista à Fox News, emissora de estimação do presidente americano, Bolsonaro foi apresentado como “Trump dos trópicos”. Confirmou que sempre admirou Trump. “Fui muito criticado por isso, mas não vou negar o que penso”. Numa evidência de que sua estima é incomensurável, o capitão chegou mesmo a defender a ideia de Trump de erguer um muro na fronteira com o México. “A maioria dos imigrantes não tem boa intenção”, disse, sem se dar conta de que a generalização encosta o insulto nos imigrantes brasileiros.

Considerando-se o desempenho da véspera, Bolsonaro vai à Casa Branca nesta terça-feira como um fã que recebe autorização para encontrar o ídolo no camarim. É como se o presidente brasileiro buscasse em Washington não uma parceria dos Estados Unidos com o Brasil, mas uma relação de subserviência do admirador com o objeto de sua admiração. No encontro com empresários, Bolsonaro teve recaídas de candidato. “Nós tínhamos fake news contra nós, grande parte da mídia contra, e só arranjamos um partido político seis meses antes das eleições. Acredito que a política no Brasil tem muito a melhorar, mas a guinada da esquerda para a centro-direita fez a diferença no Brasil. O povo cansou-se da velha política, do toma-lá-dá-cá, das negociações e dos péssimos exemplos do PT, materializados em Dilma e em Lula.”

Paulo Guedes também realçara a guinada à direita como um fator que deveria render dividendos nos Estados Unidos. “Antes, estávamos pulando na perna esquerda, agora estamos pulando na perna direita. Merecemos um tratamento diferente.” Expressando-se em bom inglês, o ministro da Economia, ex-aluno da Universidade de Chicago, falou o idioma do mercado. Pragmático, fez o que precisava fazer: vendeu o Brasil como uma oportunidade a ser aproveitada. O problema é que a devoção a Trump e a caricatura do saci-pererê que “pula na perna direita” soam bem apenas entre os republicanos. E não são negligenciáveis as chances de o pedaço menos conservador do eleitorado americano acomodar um presidente democrata na Casa Branca em 2020. Hoje, os democratas já dispõem de maioria na Câmara, onde será votado o acordo em que Bolsonaro realizou o sonho dos militares americanos de colocar os pés na Base de Alcântara, no Maranhão.

Num esforço para pintar o Brasil de Bolsonaro como um país “estável” e “vibrante”, Paulo Guedes derramou-se em elogios ao chefe: “Nossa democracia nunca esteve sob perigo, o presidente tem 30 anos de experiência no Congresso Nacional e se recusa a jogar o jogo que contaminou nossa política. Muitos dizem que ele é mal-educado porque ele é muito duro. Mas ele tem bons princípios.” O ministro referiu-se à sua proposta de reforma da Previdência e ao pacote anticrime do colega Sergio Moro como evidências de que “nós temos [na Presidência do Brasil] um homem que tem culhões (got balls).” Faltou explicar por que os aliados do presidente no Congresso testam a coragem dele exigindo cargos e verbas em troca da mexida nas regras da Previdência.

Na entrevista à Fox News Bolsonaro foi submetido a questionamentos que não ornam com o personagem cristão que repetiu na América o bordão de sua campanha. Ignorando o fato de que conversava com alguém que coloca “Deus acima de tudo”, a repórter inquiriu o entrevistado até sobre o hipotético vínculo da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. Constrangedor.

Maior parceiro comercial do Brasil, compradora de US$ 64 bilhões em produtos brasileiros em 2018, a China observa de esguelha a devoção do novo Poder de Brasília aos Estados Unidos. No discurso para os empresários americanos, Paulo Guedes fustigou-os. “Os chineses querem dançar conosco, e eles dançam muito bem.” Em verdade, os chineses bailam a coreografia mais conveniente. Começam, por exemplo, a trocar a soja brasileira pela americana.

Bolsonaro foi a Washington como quem viaja à Disneylândia. No ápice da viagem, confraternizará com Donald ‘Michey’ Trump no Salão Oval da Casa Branca, nesta terça-feira. Os resultados comerciais e diplomáticos da passagem da caravana de Bolsonaro pela capital dos Estados Unidos são impalpáveis. Por ora, o que há de concreto é essa incômoda impressão de que o presidente está sempre a um milímetro de encarnar a figura do Pateta na sua primeira viagem internacional.

 

Créditos: Blog do Josias