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Moradora do município de Alagoa Grande, no Brejo paraibano, a técnica em enfermagem Maria Rodrigues passou por momentos de tensão quando a única filha dela precisou se deslocar para maternidades de outros municípios enquanto sentia as dores do parto dos três filhos que teve. O município de origem da família é uma das 213 cidades do Estado que não contam com maternidades públicas e que fazem as mães se deslocarem para centros como João Pessoa e Campina Grande para ter os bebês.

Os dados são do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM) e revelam que no Estado há somente doze maternidades distribuídas em sete cidades: São Mamede (1), Santa Luzia (1), João Pessoa (4), Campina Grande (1), Jacaraú (1), Conceição (1), Natuba (1), Mamanguape (1), Patos (1) e Catolé do Rocha (1).

“Desde a primeira filha dela, que está com 14 anos, que ela sofreu porque o hospital daqui não fazia parto e ela teve que ter a menina em Guarabira. Com essas duas últimas gravidezes ela teve que ir para Campina Grande”, lamentou a avó. Ainda segundo Maria Rodrigues, a prefeitura oferece o pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde e também disponibiliza um veículo para as mães se deslocarem até as maternidades de outras cidades. “O hospital daqui de Alagoa Grande não atende casos graves ou mulheres grávidas. Qualquer emergência eles mandam a gente para Guarabira ou Campina Grande”, disse a moradora.

A realidade da falta de maternidades públicas na Paraíba é atestada por pesquisas do professor de Medicina e diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Eduardo Sérgio Sousa. Segundo ele, no Estado existem 16 regionais de saúde, porém cerca de 80% dos partos são realizados em apenas sete delas.

Segundo o pesquisador, a falta de estrutura, sejam recursos físicos ou humanos, e de organização na distribuição desses centros surgem como fatores que explicam a inutilização das nove regionais restantes, no que se refere à assistência obstetrícia.

“Nesses centros as mulheres têm de se mobilizar à procura de lugar para o nascimento dos seus filhos, por vários motivos. Muitas mulheres não estão com gravidez de alto de risco, mas procuram Campina Grande, João Pessoa. E aí, quando se investiga o porquê dessas mulheres terem ido a esses lugares, algumas dizem que no dia que elas precisaram do hospital da cidade delas faltou medicamento, faltou alguém da equipe ou é a maternidade que não funciona no final de semana ou à noite”, lembrou Eduardo Sérgio, que também preside o Comitê Estadual de Combate à Mortalidade Materna.

Por conta da falta do serviço, as mulheres recorrem principalmente às maternidades de João Pessoa e de Campina Grande, que concentram a maior parte dos nascimentos no Estado. Prova disso é que 50% da demanda recebida pelo Instituto Cândida Vargas, na capital, é de pacientes vindas de cidades do interior, seja da Região Metropolitana ou até mesmo das cidades mais distantes.

Por receber pacientes de outras cidades, o hospital é pactuado com outros municípios, sobretudo para atender as mães em situação de alto risco. Porém, o atendimento de mulheres, muitas vezes com gravidez de baixo risco e vindas de municípios não pactuados, também são fatores que agravam a superlotação.
“Por isso as vagas ficam ocupadas e às vezes chega uma mãe em alto risco que não terá o lugar e esta mulher, sendo de risco, poderá em uma dessas transferências se prejudicar. Nessa trajetória, às vezes há perdas de mulheres, de crianças. Estamos falando de acesso e utilização à saúde. A mulher tem que estar segura que vai ter o acesso e poder utilizar a assistência quando ela precisar”, reforçou o médico.

Jornal da Paraíba